segunda-feira, 7 de junho de 2010

O amargo da derrota, o amado da vitória

 
Uma sensação incômoda me invadiu o espírito ontem. E eu sei o que motivou o aparecimento dessa sensação. Algo como um gosto amargo de desânimo por uma derrota que provavelmente você não queria acreditar que ocorreria. Senti isso uma vez, quando participei pela primeira vez de um concurso de poesias e acabei amargando um 7º lugar com um poema intitulado Linha 147, inspirado no violento assalto e sequestro do ônibus da Linha 174 ocorrido em junho de 2000 no Rio de Janeiro. A inversão dos números no título do poema foi acidental e acabou escapando de minha revisão final. Esse foi um dos raros trabalhos líricos onde minha inspiração foi a violência urbana e o caos social vivido pela sociedade contemporânea. Nesse ano, amarguei o gosto da derrota. No ano seguinte, participei novamente do mesmo concurso e então vivenciei o sabor da vitória. O tema desse concurso era o escritor Jorge Amado, e então venci o concurso com o poema Oração para Amado, uma homenagem minha para essa grande personalidade do mundo literário. O fato estranho e marcante dessa minha vitória é que nesse mesmo ano, em agosto, Jorge Amado acabou falecendo em Salvador. E eu estava ao lado de sua casa no dia de sua morte.
Eu sempre fui uma pessoa obstinada e decidida com relação aos meus reais objetivos, e esse concurso me fez comprovar mais ainda esse lado de minha personalidade. Não me entreguei após a derrota, apesar do desânimo evidente em meu semblante, e tentei novamente, obstinado e incansável. Não desisti e fui recompensado com justamente aquilo que eu mais queria. É o que acontece quando acreditamos naquilo que criamos e que trazemos para esse mundo. Agora estou vivenciando tudo isso novamente. A batalha constante, o desafio, a imprevisibilidade do resultado, a possível derrota, a tão sonhada vitória, a queda, o desânimo, o novo impulso e o chamado para uma nova batalha. Parece que nossa vida aqui se resume a essa linha de acontecimentos. No meu caso, existem momentos claros em que respiro tudo isso, a expectativa de vitória e o sentimento de derrota, e vice-versa. Agora eu começo a me questionar se estou sendo obstinado o suficiente para as conquistas que desejo, ou se me falta mais determinação e força de vontade para seguir em frente e desenvolver ainda mais meu trabalho literário. Tudo isso dentro de mim são incertezas e incógnitas suspensas. A única certeza impregnada em mim é que tenho que continuar escrevendo sempre e buscar minhas vitórias, não importa o quão amargo seja o sabor da derrota.

oração para amado

Eu estou vestido com as palavras
da literatura de Jorge
Armado com o que há de Amado
Para que meus versos
mostrem tua prosa e teus reversos
teus escritos feitos e teus feitios
e que ninguém imagine tua pessoa
apenas como nome de rua em curso
título de casa, referência de concurso.

Eu estou vestido com as palavras
da literatura de Jorge
para sentir seu amado mundo
presente pulsando vivo
nos feitos defeitos e desfeitos
dos coronéis e jagunços
nas safadezas façanhas e facetas
de Gabriela Tereza e Tieta
na Flor faceira e dissimulada
nos passos largados na praia
da molecada abandonada
na caçada cruel da emboscada
no caçuá carregado pela mão calejada
no cacau na ponta do biscó
na colheita e na empreitada

Eu estou vestido com as palavras
da literatura de Jorge
para derramar teus cabelos brancos
por Itabuna Ilhéus Salvador Paris
e mostrar todo o seu universo amadiano
guardados no lirismo destes versos que fiz.


Por Ulisses Góes
Poema vencedor do XI Concurso
Regional de Poesias Euclides Neto
Ilhéus ~ Bahia
 
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