segunda-feira, 31 de maio de 2010

Filho do Fim do Mundo

 
Ontem vasculhei papéis antigos dentro de um envelope branco, e encontrei relíquias minhas. Rascunhos de poemas e contos, desenhos que fiz há tempos atrás, entre alguns outros documentos que não faço idéia do por que decidi guarda-los. Na verdade, eu procurava contos que escrevi quando adolescente. Estavam finalizados, prontos, e mostravam a forma como eu escrevia naquela época. Eu procurava um conto em especial. Acabei encontrando dois incríveis, e todos os planos simplesmente mudaram. Dois contos que eu escrevi me chamaram a atenção de tal maneira que decidi fundi-los em um conto novo. Então comecei a escrever uma história nova baseada naquelas histórias que eu havia escrito. E novamente me surpreendi com o que acabei desenvolvendo. Não quero criar expectativas antecipadas sobre meu conto e nem sua possível participação em futuros concursos. Mas confesso que eu tenho escrito coisas mirabolantes, com finais dignos de deixar os leitores completamente chocados, surpresos. Segue abaixo o conto finalizado. Boa leitura.

Filho do Fim do Mundo

O mundo girava de forma lenta e estranha ao seu redor num déjà vu sinistro. Uma sensação que o dominou completamente logo após ser atingido pelo projétil disparado pelo policial que o perseguia. A bala o atingiu nas costas, e então ele foi engolido por um silêncio com mãos de veludo. Seu corpo parecia agora desobedecer completamente as leis do tempo e do espaço. Tudo parecia estar mais lento, movimentando-se tão vagarosamente que ele podia enxergar cada gota da chuva caindo, uma por uma, diante de seus olhos. Seu corpo ensaiou uma pose mortal de balé, e começou a pender para frente, devagar, cada vez mais devagar. As pessoas, os carros, a rua, tudo diante de si obedecia agora a movimentos cadenciados pelas frações de tempo, milésimos de segundo. A dor provocada pelo tiro percorreu cada célula de seu corpo na velocidade de um choque elétrico. A velocidade da dor contrapondo-se à vida em slow motion diante de si. Em seu rosto juvenil havia a presença viva de um choque repentino, uma descarga violenta de emoções que invadia seu espírito de forma ininterrupta. Aquela manhã chuvosa de abril se espremeu em um diminuto momento lancinante de violenta combustão social. Continuava a cair lentamente para frente, e enquanto caía, experimentava o confuso sabor amarulento da paralisação dos movimentos. Seu corpo ficou mudo de ações, todos os gestos desmaiados após o tiro certeiro do policial. Seria esse o verdadeiro gosto da Morte? Estaria então sucumbindo para o inevitável fim de tudo? Seu cruel destino realmente se realizaria? Durante o movimento lento e mortal de seu corpo, sua mão apontou para o céu de onde desabava um dilúvio, lançando longe a arma que antes segurava com determinação e raiva, durante o assalto que tentava praticar contra um casal de turistas idosos em visita àquela conturbada cidade maravilhosa.
A dor parecia retardar o tempo e entorpecer sua mente que viajava em retrocessos de lembranças. Como chegou até esse momento fatal de sua vida? Então seu destino já estava traçado e ele não teria a menor chance de qualquer mudança? Recordou o ardente dia anterior, aquela manhã ardente que cozinhava seus miolos e deturpava suas idéias, queimando o pouco de juízo que ainda devia ter em sua cabeça de jovem marginal abandonado. Sua mente vivia atormentada por sonhos estranhos que tinha certas noites e que nunca conseguia explicar do que se tratava. Talvez fossem consequências do uso excessivo das drogas. O escasso juízo que tinha conseguiu juntar perambulando em um mundo que só lhe oferecia migalhas imprestáveis e nenhuma alternativa de sobrevivência decente. Nunca esteve em uma escola. Nunca aprendeu a ler ou escrever. Nunca aprendeu a desenhar letras ou soletrar palavras, nem sequer sabia como era seu nome escrito num papel. Não teve educação alguma. Apenas vícios e fome, uma idéia violenta na cabeça e uma arma na mão. Foi justamente no dia anterior que seus olhos enxergaram o fundo do poço, a escuridão do desespero, a dominação das drogas por todo seu corpo juvenil. Precisava de dinheiro para sustentar seu vício, e viu-se num beco sem saída. E aos 16 anos de uma vida mal vivida, entregou-se completamente ao caminho perigoso da violência urbana e do roubo armado. Sentia toda sua vida de completo abandono e sofrimento, de fugas e dores, de noites escuras vivendo escondido em prédios abandonados ou em galpões antigos, ou embaixo de viadutos que seguiam em direção a um progresso que ignorava infâncias marginalizadas. Sentia-se um marginal. E como um delinquente juvenil, conseguir uma arma não foi difícil, e apesar de nunca ter assaltado ninguém antes, sua mente deturpada pelas drogas que consumia foi afetada por uma coragem alucinógena. Estava disposto a realizar o ato, a conseguir dinheiro para continuar sustentando seu vício que o levaria ao desfecho fatal daquele momento.
Enquanto seu corpo caia lentamente atingido pela bala, sentia o ar ficar insustentável dentro de seus pulmões. Ele realmente não conseguia entender aquela insustentável leveza de seu ser marginalizado, flutuando tão lentamente para a morte. Ele não compreendia ainda que o tempo fluia de forma diferente tanto para a vida quanto para a morte. Ele estava experimentando o tempo da morte, que escorregava mansa em microssegundos sutis. E memórias que ele sequer imaginava ter repentinamente explodiram num feixe de luz diante de seus olhos arregalados. A arma ainda saltava pelo ar, girando e girando em meio a uma chuva que caía quase suspensa. O jovem garoto não saiba ainda o que acontecia realmente e não acreditava que aquilo tudo acontecia com ele, e mesmo contra a vontade dele, sua memória explodiu em milhares de imagens estranhas, nítidas e surpreendentes. Vislumbrou um momento de sua vida que sua mente não conseguia descobrir onde estava guardado. Estaria tendo flashs de sua vida pouco antes de sua morte, ou tudo era puro delírio de sua mente? E diante de si já não via mais aquele dia chuvoso e fatal. Tudo ao seu redor foi desaparecendo de forma desfocada e fluente num clarão silencioso, tão somente silencioso... Uma outra paisagem tomou forma diante de seus olhos aturdidos. Viu um entardecer.
Era final de tarde diante de si. Anoitecia na caótica cidade grande. Era o momento de acender todas as luzes da Humanidade. Prédios iluminados, postes acesos, painéis luminosos de propagandas consumistas. Um out-door gravou em sua mente de criança a imagem gigante de uma bela mulher sorridente oferecendo a todos incríveis serviços de telefonia e internet de banda larga. O céu era tingido por um entardecer violáceo envolvido por negras nuvens anunciando um temporal. Ventanias anunciavam um dilúvio prestes a desabar naquela metrópole em fim de expediente. O pequeno garoto de 6 anos sentia o vento intenso em seu rosto, enquanto caminhava à beira de avenidas movimentadas e congestionadas pelo tráfego intenso de carros. Todo aquele caos não o incomodava, apenas a fome o perturbava. Acompanhava silenciosamente e de perto seu pai, catador de papel e de latinhas de alumínio que passava o dia inteiro recolhendo material reciclável, e em cujo rosto estava exposta a face esmagadora de exclusão social. Ao lado de seu pai, caminhava sua mãe, grávida e cansada de parir tantos filhos no mundo. Caminhavam silenciosos e cansados, com passos que pareciam sempre demonstrar que eles estavam fugindo do sofrimento diário, tal qual nordestinos fugindo maltratados do distante mundo árido do sertão e agora vítimas da indiferença da caótica cidade grande. O pequeno garoto sentia fome, assim como seus irmãos mais velhos, que a essa hora estariam perambulando pelas ruas vendendo doces nos sinais ou pedindo esmolas pelas esquinas. O menino tinha a estranha sensação agora de estar dentro de um sonho distorcido, e mesmo assim tudo era muito nítido diante de si. Ele olhou para seu pai e se lembrou de que ele percorria as ruas amealhando jornais velhos, caixas de papelão e latinhas de alumínio para garantir o amassado pão abençoado que seus filhos devorariam na velocidade de um comercial de TV. Então, ele olhou para sua mãe e se lembrou de seu rosto marcado pelo sofrimento tortuoso e tristeza insistente, e de seu ventre de mulher a carregar seu próximo irmão, de destino quase duvidoso e futuro provavelmente incerto.
A noite ganhava seus contornos obscuros e luminosos enquanto um rio conturbado de luzes e buzinas trafegava indiferente ao lado deles. Relâmpagos iluminavam o céu urbano, enquanto trovões cortavam o ar em estrondos assustadores. O garoto e seus pais seguiam por diversas ruas e avenidas, traçando um caminho sinuoso e irregular, buscando a rota mais curta para chegar ao seu destino, seu lar, um barraco armado com papelões e restos de madeira compensada que ficava embaixo de um viaduto. Em algumas avenidas, as lojas ainda estavam abertas. Seu pai parou em frente de uma dessas lojas e começou a catar os papelões largados juntos com sacolas de lixo. Sua mãe segurava a barriga, como que sentindo o peso de sua maternidade, ao mesmo tempo em que olhava meio admirada as imagens fluindo nas telas dos televisores de LCD, num estado de hipnose que não chegava a tirá-la completamente da realidade que a cercava. O garoto terminou de pegar os últimos papelões quando se assustou com seu pai gritando pela sua mãe, chamando ela para ir embora. Continuaram a jornada embalados por esperanças e dúvidas a respeito do dia de amanhã. Já o menino não compartilhava dessa mesma sensação, e ficava confuso com seus pensamentos. Sua mãe constantemente amaldiçoava a vida que levava. “Deus se esqueceu da gente”, reclamava indignada. Já seu pai se resignava e sabia que não tinha tempo para tentar entender como funcionava o mundo onde perambulava, já que estava ocupado demais buscando meios para sobreviver com sua mulher e seus filhos. O céu continuava com seu espetáculo de luzes e estrondos. O temporal era iminente. Eles apressaram os passos e tomaram o caminho de uma rua mal iluminada e pouco movimentada, fétida e cheia de lixo acumulado. O menino então viu o momento exato em que sua mãe soltou um grito agudo e levou a mão à barriga. Seu pai assustou-se, largando a carroça que puxava e correu para prestar socorro à mulher, já ajoelhada no chão.
Naquele momento a chuva desabou forte e assustadora. O menino apavorado presenciou a gravidade da situação, e imediatamente ajudou seu pai a colocar papelões no chão da calçada e acomodar sua mãe ali, que gemia de dor. E pelo ar ecoaram gritos assustadores de uma mulher que não suportava mais as dores que sentia. Seu irmão iria nascer ali mesmo, no meio da rua, no meio da chuva, no meio do nada, em uma rua mal iluminada daquela imensa metrópole. A chuva desaguava em suas faces miseráveis. Seu pai segurava a mão de sua mãe, e ela, aturdida pelas dores, todas as dores que podia suportar, fazia força para ter mais um filho. Era uma mulher em meio a uma tempestade, sem qualquer ajuda médica, dando à luz e sentindo que sua dor era multiplicada pelo sofrimento da vida que tinha. E ali mesmo, entre gritos e gemidos, apoiada pelo marido e pelo filho, expeliu mais uma vida, cuspida junto com um choro abafado pelo barulho daquele temporal. Seu pai, com as mãos ensaguentadas, pegou seu rebento envolto em sangue e placenta e o entregou nas mãos da mulher, em cujo rosto mostrava uma mistura de emoções embaladas por alívio, alegria e tristeza.
No início daquela mesma rua surgiu repentinamente um marginal descambando em tombos nervosos e passos rápidos. Sua pernas ágeis bucavam a todo custo fugir das sirenes das viaturas que o perseguiam, e dos policiais que o haviam flagrado momentos antes tentando assaltar um posto de gasolina. Os olhos do menino enxergaram aquele meliante passar por eles numa fuga frenética e alucinada. O garoto levantou-se e ficou em pé, no meio da chuva, observando aquele marginal fugindo pela rua. Seus pais, porém, absortos pelo instante que vivenciavam, não chegaram a ver o homem passar por eles correndo com passos cada vez mais fugitivos. Virou-se e viu seu pai entrar em desespero profundo e sua mãe tombar a cabeça desacordada. Aparentemente tinha desmaiado, perdido os sentidos momentaneamente, mas o homem olhou para ela e tocou seu corpo, como que tentando sentir seu coração e ter certeza de que ela ainda estaria viva. Naquele momento, o menino viu seu pai ser engolido pela sensação da morte, e uma descarga de adrenalina invadiu seu corpo. Seu pai entrou em desespero, como que temendo o pior. As sirenes das viaturas começaram a soar cada vez mais perto, e uma delas surgiu no início da rua, fazendo uma manobra arriscada na esquina. Aquele barulho havia chamado a atenção de seu pai, e rapidamente ele se ergueu desesperado e com a idéia fixa de pedir ajuda para sua mulher, e levá-la para o Pronto-Socorro mais próximo. E então, em pé, parado ali no meio da chuva, o pobre menino observou seu pai, com as mãos sujas de sangue, correr para o meio da rua na direção da viatura que vinha em alta velocidade. Seu pequeno irmão recém-nascido chorava nos braços de sua mãe que trazia agora no rosto o semblante de alguém que já não pertencia mais ao mundo dos vivos. O menino apenas ficou ali, inerte naquele momento, olhando anestesiado tudo aquilo acontecendo ao seu redor. Seu pai correu feito um louco em direção à viatura, e então tudo aconteceu rápido demais. O veículo não teve tempo de desviar, atingindo em cheio o homem, lançando seu corpo para o ar, fazendo-o saltar por sobre a capota do carro. A viatura freiou bruscamente de lado, e rapidamente os policiais saíram de dentro assustados com a situação. E o menino, sentindo seu coração numa aceleração nunca experimentada antes, viu lá adiante o corpo inerte de seu pai estirado na rua. Completamente chocado, o garoto não conseguiu se mexer. Apenas observava tudo aquilo, calado, com um olhar fixo, enquanto ouvia o choro de seu pequeno irmão nos braços de sua mãe, e os policias debruçados no corpo de seu pai morto. Sua mente não conseguia ainda acreditar que tudo aquilo estava acontecendo, e toda aquela cena para ele ainda parecia ser surreal, parecia um sonho estranho que a qualquer momento sumiria diante de si logo após um clarão. E ele realmente esperava que tudo ao seu redor fosse desaparecendo desfocado e fluentemente num clarão silencioso, tão somente silencioso...
Mas isso não aconteceu. Nunca aconteceu. E todo o sofrimento pelo qual passaria pelos seus próximos anos tinha nascido justamente neste dia. Toda a sua vida de abandono, clandestinidade, humilhações e marginalidade precoce, tudo havia nascido deste dia. E o pobre menino passou toda sua vida sem nunca imaginar ou entender que seus sonhos estranhos nada mais eram do que visões do futuro. E ele passou toda sua miserável vida sem se lembrar que justamente naquele dia fatídico, pouco antes de toda aquela tragédia acontecer com seus pais, ele tinha vislumbrado nitidamente sua primeira visão do futuro. Ele tinha visto o momento exato de sua própria morte. Uma visão que ele só se lembraria no último dia de sua vida, naquele exato momento no qual o mundo girava de forma lenta e estranha ao seu redor num déjà vu sinistro.

Conto escrito por  
Ulisses Góes ~ maio 2010

[update do post]
O conto acima escrito foi revisado e teve algumas pequenas partes reescritas posteriormente à data de publicação aqui no blog.
 
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