epidemia lírica

Versos sem título porque minha poesia foi dizer adeus

O eixo de nossas vidas sempre se desalinha
quando um olhar sorridente se despede
deixando um sereno horizonte sem linha
e um vasto oceano de versos que não se mede.

Ulisses Góes

em memória de Gisele Alba Natali


Versos sem título porque minha poesia foi aprender a nadar

Amarrando as pontas das pontes
corajosas beijando margens distantes
que nunca se encontram.
Poesia pequena como aceno de mão.
Molhando meus pés dormentes
nesse silencioso rio interminável
passando sereno em minha vida.

Ulisses Góes

Imagem: capa de The Endless river, novo álbum da banda Pink Floyd


Versos sem título porque minha poesia foi colher sorrisos

Sinto frios e arrepios
em rodopios na minha pele
meu pensamento é leve
antes que o vento te leve
forte como um abraço breve
em canções com cheiro de uva
respiro estes dias de chuva
escrevo palavras de amoras
refresco doces memórias
olhos procurando milagres
dedos coçando versos
tão brancos quanto algodão
mãos buscando poesia danada
correndo pela contramão.

Ulisses Góes

Fotografia: Mateus Felipe


Versos sem título porque minha poesia foi caçar pétalas

Essa secura, esse silêncio
enraizado nessa sua casa
que ensurdece suas ideias
e abala as paredes da sala,
fazendo nascer suas nuanças
suas vontades de mudanças,
suas mudas desnudas de flores,
sua floração de versos novos
seu coração de nove versos.

Ulisses Góes

Beleza fotografada: Camilla Braga
Fotografia: Danieli Cruz Santos Postal



Depois da chuva

A poesia saiu de mim por esses dias
anda sorrindo pelo jardim em folias
achando graça de sua traquinagem
Minhas palavras todas carregou
flores e avelãs foi o que encontrei
sempre descalça a me espionar
esperta na arte de me decifrar
vocabulariosa e melindrosa
sussurrando seus esconderijos
apontando seus caminhos secretos.
A poesia anda ausente de mim
caminha silenciosa à distância
sentindo minhas outras fragrâncias
observando meus passos na chuva
Não demora muito e ela retorna
trazendo folhas de pitanga
numa xícara com água morna
numa cândida ansiedade sem fim
para contar tudo o que viu em mim.

Ulisses Góes



Versos Sabáticos VIII

Aquele dia se desgarrou da rotação habitual
ignorou gravidade e desenhou novas colisões
criou fissuras azuis de rosas na sua calçada
Coração de leão desenhando horizonte e mar
navegando manso levando olhos de amar
sorrisos doces e um frasco de coincidências
Nuvens de palavras chovendo mil frases
sentimentos feitos de tempestades solares
desintegrando satélites, distâncias e radares
Mundos explodem enquanto o amor lhe balança
Rua escadas abraços porta coragem que avança.

Ulisses Góes

Fotografia: Sean Hacker Teper, 
erupção do Monte Tungurahua, no Equador



Versos Sabáticos VII

Arremessou sua poesia para além das fronteiras
desativou momentaneamente sua zona de conforto
desintegrou trechos de versos no ar do confronto
De suas próprias palavras recalibrou a semântica
capturado no silêncio de olhares hipnotizantes
dominado por uma vontade sentimental quântica
de entrelaçamentos em seus abraços cativantes
vitamina de borboletas com cápsulas de adrenalina
Desintoxicou sentimentos com doses de dopamina
pensamentos estelares grudados no céu da boca
adorável a eternidade de um domingo à tarde.

Ulisses Góes
FotografiaMargarette Bacani


Versos Sabáticos VI

Penteou seus pensamentos enroscados com enganos
Experimentiu uma dose perigosa de doçura ilusória
Desfibrilou seu coração antes que faltasse energia
Apagou trechos de sua tese sobre a Origem da Simetria
depois de quase se envenenar com palíndromos sentimentais
Corajoso varreu todos os escombros com os pés descalços
Descobriu a cruel inexistência de princípios, meios e finais
Desenferrujou os silêncios na distorção do último volume
Desaprendeu propositadamente tudo sobre Amor e Poesia
Morreu sufocalado para acordar na estranheza do outro dia.

Ulisses Góes
Pintura Fotorrealista: Jeremy Geddes



Combustível para Zeppelin 

Ele imaginou que estava loucurado de suas sanidades
vomitando todas as borboletas azuis alojadas no estômago
e fazendo suicidar suas vertigens em terraços e penhascos
Alguns feriados ele tinha certeza que havia enterrado
outros ele fez questão de queimar com meio litro de querosene
Pensamentos líquidos faziam de sua mente um oceano perene
onde tentava afogar seus monstros de angústia e solidão
entre terríveis tormentas traçando tragédias turbulentas
Estava diferente por fora, mas ainda o mesmo por dentro
Não encontrou suas asas de rimas e versos no guarda-roupa
Teimoso, decidiu aprender a voar de novo com outras palavras.

Ulisses Góes



Pescador de Copos Esquecidos

A poesia que estava em mim antes de nascer
agora está no pensamento dentro de você
Em sua mão que sustenta o livro para ler
está no verso que desenferruja seu cotidiano
está no lirismo que desgoverna sua bússola
A poesia que estava em mim antes de surgir
e veio mansa e frouxa de seus olhos de observar
agora distorce todo o seu plano cartesiano
inverte a polaridade de seus sentimentos
e segue deixando goles de café e vinho
pelos cantos silenciosos do quarto.

Ulisses Góes
Fotografia: Margarette Bacani




Nitrogênio Líquido Sentimental

o corpo esquecido no silêncio das geleiras
Os olhos sentados a observar as ausências
Seu inverno interno parece não ter mais fim.
Enxerga apenas seus passos sobre a avalanche
soterrando todos os cômodos de sua casa
Sentimento asfixiante sufocando sem aviso prévio
e seus dedos congelados permanecem escrevendo
atormentadas poesias glaciais abaixo de zero.

Ulisses Góes




A Montanha do Rei Silencioso

Para guardar sentimentos na escuridão
Trancar desejos em containers suspensos
apagar atalhos em velhos mapas rasgados
anular o efeito do veneno dos covardes
Para desenhar suas tortas rotas de fuga
e reescrever manuais sobre amores agridoces
Poesia livre em dose única de oito versos
escrita no ar rarefeito de vulcões adormecidos.

Ulisses Góes




Versos Sabáticos V

Engarrafou seus pensamentos em frascos na estante
antes de desenhar o lado escuro da Lua na parede
plantou sementes de melodias naquele solo de guitarra
Corajoso se tornou um Sopro intenso e desafiador
Consciente injetou 20 miliversos de poesia no coração
Enxergou a estratosfera mansa pairando suspensa no teto
durante um overdose contínua prologanda de emoções
Tinha chocolate meio amargo grudado no céu da boca
e um estranho odor de confiança queimada ao seu redor
Projetou seu futuro enquanto piscava os olhos pensantes
Observou aquele estranho silêncio girando ensurdecedor
Ouviu o trovejante sorriso cínico anunciando o inevitável
permaneceu sentado inerte no olho dilatado do furacão.


Ulisses Góes



Versos Sabáticos IV

Ele era um impreciso rapaz enloucrescido
sua mente orbitava carrosséis frenéticos
desgovernado com pensamentos labirintíticos
suas mãos mímicas desenhando constelações
hieroglifando poemas de trás para frente
contando os anos espremidos no cotidiano
tomando doses pornográficas de ninfetamina
escalando cadeias de montanhas-russas
riscos de fronteiras no asfalto com giz de cera
criação de linhas de versos por uma semana
em seu rosto olhar de ateu e sorriso de Coringa
a contemplar tempestades eletromagnéticas
de sensações iluminando as paredes de sua mente
enfeitada com milhões de vagalumes selvagens
perseguindo corvos devoradores de sanidades.

Ulisses Góes



Versos Sabáticos III

Flutuava absorto na inerte candura dócil de meus sonhos
quando deslizei ao patamar débil das entranhas deste mundo
Desmontei o cotidiano numa sequência de fotos em preto e branco
e fui marcando pontos de referência na linha do dia dormente
a fumaça do café, a densidade do silêncio, a nicotina ausente
os sons do universo, a fuga do helicóptero, a morte do jornalista
a queda do meteoro, a tentativa do poema, a verdade dissolvida
o filete de sangue, o álcool iodado, o estranhamento em vermelho
A insaciável fome de escrever em meus dedos descontrolados
que sempre insistem em desenhar um mapa geolírico temporal
de cada dia que o poeta respira sob a redoma dominante infernal.

Ulisses Góes



O Olho Luminoso do Furacão

Maldito mundo desconcertado ultrapassando sinais vermelhos
sugado pela espiral turbulência destes seus olhos vermelhos
chorando pequenos trechos distorcidos de poesias paliativas
sua doçura é uma dor dura camuflada por sorrisos desenhados
Sua juventude é sufocada pura pelo ar rarefeito das mentiras
Seu discurso digital enfurecido riscando paisagens analógicas
sobrevoando nuvens de noticiários chovendo sensacionalismos
Sua perspectiva é um olhar secreto na esquina entre duas ruas
as ideias sangrando à medida que você caminha de mãos nuas
Os zumbis dementes dançam freneticamente até virarem cinzas
enquanto você amplifica os equalizadores de seu jardim de sons
checa novamente suas coordenadas e trajetórias definidas
na rota esquecida dos zeppelins e dos tornados pulsantes
antes de sair à caça de faixas de pedestres apagadas e perdidas.

Ulisses Góes




Escrita inflamável

O juízo confuso queimando neurônios
lacrimejando pensamentos derretidos
pelo calor aprisionado dentro de um beijo
A morte sinalizada abraçando pirotecnia
O fato nascido fatalidade, fogo e histeria
A vida perene diluída numa festa infernal
consumindo sonhos, canções e o seu dia
traçando tragédias em trajetórias cruéis
intoxicando com noticiários sensacionalistas
e manifestações escorregadias de pesar
esta é a realidade rasgando o entendimento
deste anjo torto reconfigurando seu procedimento
perdido procurando um verso que revolucione
neste mundo vasto mundo sem rima que solucione.

Ulisses Góes




Radiação lírica

A loucura intensa que acorda e se levanta
e procura rasgar o penhasco de sua garganta
mostrando que sua vida é um tornado
inquieto de ardidas sensações aflitas
chamando você para desbravar caminhos
que somente e tão somente a você pertence.
Rastreando rotas torpes e desvios entorpecentes
caminha o poeta dividindo os próprios átomos,
gerando calor e energia no núcleo das palavras
desmaterializando tudo aquilo que está escrito
estuprando todo silêncio com um violento grito
reescrevendo de outra forma tudo o que já foi dito.

Ulisses Góes




Verso fossilizado

Girando entre
eras caóticas
e eras glaciais
É o que este
vasto mundo faz.

Ulisses Góes



Sentimentoscópio

Meu peito se preencheu
de todos os corações
que inesperadamente amei.
E ainda assim
diante desse oceano
de amor sem fim
silencioso ausculto
o vazio oculto
dentro de mim.


Ulisses Góes


Desconstrução Sistemática da Poética Binária

Pensamento apagado movimento apagado
desacordado sobre a grama molhada do jardim
Vagalumes tecnológicos piscam para mim
naquele céu de dimensões astronômicas
portas lógicas para meninas mnemônicas
Pensamento aceso movimento apagado
inerte agregando palavras biônicas
agrupamentos condensados de zeros e uns
Pensamento apagado movimento aceso
saltando sobre desfiladeiros de pesadelos
olhar para cima enxergando rotas supersônicas
Pensamento aceso movimento aceso
embaralhando licenças lírico-atômicas
nas constelações de poesias binárias brilhantes.

Ulisses Góes



A Perigosa História do Poeta Terrorista

Engulo trágicas metáforas engasgadas
experimento mentoladas semânticas mastigadas
escrevo fórmulas gramaticais resolvidas
injeto overdoses críticas de adrenalina
vejo o Clube dos Estranhos na esquina
resolvo exponenciais amores revolucionários
observo o vendedor ambulante de dicionários
expulso expressões sinceras desativadas
desenho desérticos asfaltos abrasivos
enxergo nicotina disfarçada de adesivos
escuto indiferentes vozes sintetizadas
namoro frequências moduladas sintonizadas
descubro baunilha orquídea radioativa
capturo o devorador solitário de enciclopédias
planejo atentados poéticos flamejantes
organizo manifestações pulsantes sincronizadas
faço uma pausa para você recuperar o fôlego
e jogo versos de molotov na fumaça dispersante
explodo sufocantes distopias maléficas
e admiro a flutuante liberdade conquistada
das vogais girando ao redor de consoantes elétricas.

Ulisses Góes

imagem: Molotov Man [2006], Shepard Fairey


Ionosféricas Camadas Poéticas

Tenho versos coçando em minha nuca há dias
um alerta sobre o que tenho que dizer a todos.
Tudo acima de nossas cabeças,
tudo dentro de nossas mentes.
Rimbaud estava certo em seus versos,
"É o mar misturado ao sol",
uma combustão cósmica
fervilhando minhas ideias líricas.
Um sonho, um pesadelo,
um penhasco, ondas de rádio
em nossos ouvidos.

Ulisses Góes



Profunda Altitude

Poeta errante, sobrevivente a cada segundo
a mão trêmula transpirando sobre cada verso
Sua palavra, exato enigma em cada gesto
Cadavérico o olhar inerte do inimigo imundo.
Poeta andarilho, caminhante sobre o mar de névoa
Sem sinais de rádio sem conexão sem mágoa
Vertiginoso pleno na queda estratosférica
sufocante buscando superfície estratégica.
Perdendo o olhar na dimensão do horizonte
Aguardando silencioso todo amor que o afronte.

Ulisses Góes

Imagem: Caminhante Sobre o Mar de Névoa, pintura 
a óleo de 1818 do artista alemão Caspar David Friedrich.



A Formidável Jornada de Margarette Bacani

Mochila galática nas costas pela Europa
Tatuagem alada nórdica nas costas nuas
biscoitos de morango na caverna explorada
Neve caindo da janela do ônibus
pés descalços flutuando no Mar Morto
Congeladas admirações na aurora boreal
Kilimanjaro na rota do ônibus espacial
Chuva de meteoros em escala nacional
Os livros publicados voando pela biblioteca
Escavação arqueológica numa discoteca
sete continentes antigos desvendados
Os tigres de bengala as dunas de Dubai
comida japonesa que da boca não sai
Uma terceira língua para não se perder
Cabelo muito curto quase perto de Berlim
Penhasco de braços abertos na Irlanda
Arranhando o céu desafiando a gravidade
Mãos de origami dedos de guitarra
Palácios seculares vulcões ativos milenares
Pontes poentes ruas janelas portas estelares
no coração o tremor guiado pelas estrelas
andarilha em busca do mundo que ninguém vê.

Ulisses Góes
FotografiaMargarette Bacani


Manual sobre como desarmar uma Bomba Atômica

Suas palavras tem forma,
cheiro, cor, dimensão, altura,
densidade, peso, curvatura.
Suas palavras tem gosto
de dor, descoberta, aventura.
Suas palavras são hormonais,
sedentas, instáveis, voláteis
Suas palavras são palpáveis.
Corte o fio vermelho
e continue escrevendo.

Ulisses Góes
FotografiaMargarette Bacani



Teatro dos Zumbis

Teu comodismo indiferente me assombra
tua acomodação referente, tua sombra.
Como dar ação e extrair da estranha antumbra
àquele que sequer enxerga o véu da penumbra?

Tantos anônimos antônimos sem assentos
tantos atônitos sem tonicidade em suas vozes
Como dar tônica e detonar o pensamento torto
daquele que acha que navega sem sair do porto?

Tantos conectados com o nectar da desinformação
tantos concentrados centrados na massificação
Impossível chamar ao debate quem nem se debate
enquanto se afoga calmamente no vazio da multidão
na rotina pesada da retina cansada perdida na imensidão.

Ulisses Góes






Mochileiro das Galáxias embriagado

Atravessei a rua e algumas fronteiras
para falar que ninguém está sozinho
Escolhi corajoso o gosto do vinho

e você escolheu o sabor dos brócolis

Você tenta organizar seus pensamentos
enquanto eu tento controlar meus atos
Falamos sobre Vida em Marte e os anos 70
e ouvimos no ar a melodia suspensa
do Homem que vendeu o mundo

Você foi embora fazer pãezinhos de queijo
Eu fiquei me embebedando de poesia
e encontrando observadores no final do dia. 

Ulisses Góes



Seppuku

Seduzir sua mente de valores distorcidos
Abrir seus olhos numa hipnose silenciosa
Expor tua corrupção suja no fio da lâmina
tua violência cruel tua podridão lânguida
escrever teu nome no Livro da Morte
e induzir seu sutil suícido purificador notável
transformando você em noticiário inexplicável. 

Ulisses Góes
 


Algoritmo poético

Sinto o constante deslocamento dos continentes
enquanto desenho intensas poesias cosmológicas
Caminho com verbos esmagados sob meus passos
e leio a ortografia pornográfica da raça humana
nessa estrada de rimas quebradas e fora de moda.

Engulo minhas tonturas provocadas pela Rotação
deste vasto mundo cheio de iluminuras e fadas eróticas
Repúblicas sem direção e revoluções escatológicas
Incontigências urgentes soam como disco arranhado
nas canções que flutuam em seu Ipod empoeirado.

Poesia moderna é uma alquimia perigosa que persigo
Experimento transmutação de versos com metais preciosos
Sigo criando quimeras costuradas com lirismos laboriosos
Apago a luz para enxergar a embriagadora escuridão
Entro em colapso sem lápis sem papel sem nublado céu
Sou apocalíptico na elíptica curva cíclica de escrever
quem eu sou.

Ulisses Góes



A Fábula do Zumbi Solitário

Meus ouvidos se rompem para escutar
aquela velha história sobre eternidade
Suas mãos vazias estavam ocupadas
criando paraísos com prazo de validade
e infernos burocráticos para sua humanidade

Você jura que viu Jesus dobrando a esquina
Sob um céu de chumbo num dia desarmado
Você sofre espasmos cósmicos constantes
Escuta sons de espadas girando distantes
e o ruído do rádio nos automóveis pela cidade

Levante-se, homem morto sem cérebro
um ser soluto sem qualquer Valor Absoluto
Dissolvido, olvido, nunca resolvido, diluído
Levante-se, homem morto sem cérebro
sem sequência de fibonacci em tua desordem

Tempestades elétricas em meus neurônios.
Vejo mil ideias relampejando entre os clarões.
Vejo o tráfego rastejando em ruas afogadas.
Vejo caos e esperança tentando rimar.
Vejo um descarrilamento de desejos.
Vejo o paraíso com toque de recolher.
Vejo agora o mundo que evapora, por ora.
Vejo minha poesia rasgando tuas entranhas.
Vejo sua cura sangrar de maneiras estranhas.

Ulisses Góes



Reino Animal

Acha sina
A chacina?
O que se revela
na chama da vela
ao defunto da favela?
E que lição se tira
da escopeta que atira
e da vida que a bala tira?
E todos fazem guerrilha
por um caroço de ervilha
E tudo de cruel é pôsto
na ferida de onde o sangue é exposto
E na lágrima que escorre de teu rosto
Por que carregar sobre os ombros
tantos fins e tantos escombros?
E então atiram o cigarro à querosene
dinamitando a humana vida perene
preparada para queimar
No absurdo ad aeternum deste lugar...
Por que a revolta, o sequestro e o pânico
No ônibus do Jardim Botânico?
Quem proverá nossas crianças de outros pães
Se todos agirem como raivosos cães?
Tua indiferença uma taxidermia
Tua insensatez uma sutil hipotermia
Tua crise de consciência uma hipocrisia
Estragando com o alvorecer de cada dia.
Como se justifica sua supremacia?
Todas as suas sujas histórias estão
escritas como rastros de sangue
pelas linhas da vida de tuas mãos
e nas estradas de carcaças cadavéricas.
Então atiram flores ao vento
dinamitando santas orações ao tempo
preparadas para nos salvar
do absurdo ad aeternum deste lugar...

Ulisses Góes



Ultravioleta

Cataventos espalhando nuvens de versos
contaminando o espelho dos seus olhos.
Navegando próxima do Meridiano das Loucuras

Minha casa flutua distante do continente
longe das fronteiras e das tropas contingentes.
Suavemente toco o lado negro da minha Lua
Onde o dia é tão escuro quanto a noite é longa.

Gás Lacrimogêneo nos olhos dos apaixonados
Bombas de efeito moral nas portas das Catedrais
Aviões plantando escombros e funerais
Em terra firme procuro minha fortaleza
Vestindo meu fardão da Academia do Poeta Solitário
rastejo pelas trincheiras cheias de gritos panfletários
levando minhas anotações secretas e mapas planetários
em busca do marco zero de minha revolução.

O poeta em segundo plano, a poesia no microfone
O soldado camuflado, a bala no gatilho
Carrego cartuchos de palavras, munições de manifestos
e uma certeza tatuada em minha mente me faz lembrar
que amanhã será um novo dia quando o Sol haverá de nascer
para queimar todas as minhas peles, marcas e cicatrizes
até restar apenas um punhado de cinzas líricas
espalhadas como nuvens de versos
contaminando o espelho dos seus olhos.
 
Ulisses Góes
 



A Segunda Lei

O mundo opera uma ópera imunda
discursos inflamados para multidões
impregnadas de inteligências mutiladas
e de insistentes ignorâncias massificadas
A falta de juízo desenhando o Juízo Final
O sistema mente e oculta seus erros
travando todos os olhares em um céu azul
cheio de intervalos comerciais

A rotina aglutina e abriga obrigações
Sufoca seu tempo feito de ciclos cegos
A retina derrama-se em lágrimas amargas
Válvulas de escape deixando escapar
piadas dementes em programas de TV
O pobre humano não ouve, não fala, não vê
Um fantoche criado em cativeiro social
preparado para orar, votar e sofrer

Ruas asfaltadas com sangue humano
holocaustos em hipóteses hiperbólicas
utopias entupindo petições e abaixo-assinados
Milícias explorando sobreviventes assalariados
Políticos secando oceanos lucrativos
e você sorri sonhando ingenuamente
que seu voto obrigatório é um ato consciente

Sua vida é uma entropia insustentável
O suor do seu trabalho gerando energia
que aquece as turbinas da sociedade
sugando suas vontades até a última gota
Sua vida é um buraco negro imperdoável
engolindo protestos, poesias, percepções,
projetos, passeatas, pátrias, preservações
poeiras de estrelas e borboletas.

Ulisses Góes



1979

A grama japonesa não se abalava
crescia espetando meus passos de menino
As amizades sorriam debaixo da chuva
e nosso desafios desciam ladeira abaixo
nas rodas de uma corajosa Caloi
Nosso quarteirão era nosso castelo
Corríamos as linhas de nossas fronteiras
curtindo a vida adoidado.
Trajetos risonhos num tempo amigo
batalhas gloriosas de mamonas
cartas de amor lidas no telhado
a voz inconfundível de Willy Modesto na rádio
o antigo Opala quatro portas estacionado
banhos de mangueira no quintal
muros que nunca separavam conversas
terrenos baldios para desbravar
cair no ar e nadar em sonhos
jogar fora todos os dias enfadonhos
flutuar em sons de gargalhadas
acordar canções nostálgicas
cochilar em tardes mágicas
e guardar todas as lembranças
do pequeno astronauta poeta
para os próximos 30 anos.

Ulisses Góes



Batman Colorado

Um mundo feito de coringas e de balas
Onde a Lei da Gravidade faz flutuar imoralidades
e a Escuridão profana os domínios dos dias
Um mundo feito de desesperados e de velas
Iluminando ceticismos e uma fé sombria
Um mundo desenhado com pólvora e projéteis
escandalizado pela escalada da sacanagem
A sina da chacina ainda insiste em meus versos
protagonizando sessões sangrentas de cinema
Um mundo de infernos suburbanos e paraísos fiscais
Um mundo pincelado com sangue e gasolina
Um mundo desfeito em defeitos e horrores
Um mundo sem onomatopéias silenciosas
Um mundo sem quadrinhos vingadores
Um mundo sem heróis.

Ulisses Góes 



Tensão Umbilical

Desde o seu nascimento
a vida é um cabo de guerra
e você demora nessa Terra
a tomar disso conhecimento.

Ulisses Góes 



Declinação Magnética Sentimental

O sentimento, essa bússola quebrada
que te confunde em uma jornada
errante de direções indefinidas.
O sentimento, esse mapa desenhado
que te aponta um caminho
distante das rotas conhecidas.
Seguindo cego em direção ao Norte
que aponta a tua agulha tonta,
direcionado pelo teu GPS pulsante.

Ulisses Góes 



Necrologia do Amor

Uma guerra silenciosa e desencantada
deflagrada por olhares que fuzilam
tiros mortais no peito dos desavisados.
Amores entorpecentes anestesiam
criando movimentos inexplicáveis
e expressões nirvanísticas de gozo.

Para o que te castiga nessa tontura
Para tanto desespero que sempre dura
Não há remédio certo não há cura.
Desilusão amarga em desculpas puras
Cartas suicidas sob um céu de chumbo
Corações expostos e rasgados
sob peles dilaceradas, estripadas
Escrevendo a necrologia do Amor.

Sentimentos intoxicados sem sentido
Mãos cheias de segredos pesados
cigarros apagados e copos esquecidos
entre corpos largados e amaldiçoados
esperando a infortúnia autópsia inevitável
que definirá enfim sua Causa Mortis.
Assine o Livro dos Mortos de Amor
peça uma licença poética a Drummond
e saia do enterro com um sorriso manso
a procurar um novo amor que não te mate.


Ulisses Góes



A Bruxa, o Cigano e o Poeta

Uma Santíssima Trindade navegando
através dos tempos, espaços, matérias
Acima das superfícies flutuando etéreas
enxergando os sofrimentos dos mortais
Abaixo do firmamento soprando oníricas
onde repousam os deuses estratosféricos

Ela é a alma profícua, Gaia giratória
respirando ciclos e tecendo sementes
Feiticeira apaixonada de amores ausentes
Caminhando silenciosa nas fases da Lua
Deusa iluminada pelas fogueiras da noite
Venerada em rituais fraternos de comunhão

Ele é a liberdade dilatada, Cigano errante
Apagando as fronteiras para ganhar o mundo
Tarô e vinho à sombra de árvores e canções
trilhando filosofias em cósmicas peregrinações
Afugentando rotinas, espíritos, toxinas
Acena o andarilho cabalistico planetário

Ele é o verso que respira, a palavra que tem fome
desenhando o verso que orbita a tua fronte
Trovador de amores sufocantes e entorpecentes
sentado em topos de prédios admirando poentes
rasgando poemas sangrentos de um mundo cruel
festejado e declamado em saraus incandescentes

Uma Santissima Trindade, Triskelion em movimento
enfeitiçando, caminhando, escrevendo.

Ulisses Góes




A sombra no Sol

Houve um tempo em que
Eu estava fora de minha mente
Uma época de preces
E rodovias sem retorno
As tempestades criavam sobreviventes
E eu acendia fósforos
Para iluminar minhas palavras

Noites de curas desaparecidas
E amores de febres vacilantes
Cheiro de gasolina
E paredes descascadas
E ao meu redor janelas sussurrantes
Mostravam-me a sombra no Sol

Houve um tempo em que
Seus olhos faziam manobras
Escrevendo sinais de ajuda
Ao meu redor
E meus abraços invadiam
Seu espaço para te guardar
E eu cantava melodias
Para te afastar da escuridão

Lá fora pessoas insanas
Desumanas cruéis
Delinqüentes traficantes
Desonestas infiéis
Queimando seus rostos
No sol de setembro
Enquanto eu e você
Pintávamos estrelas no céu
Para enfeitar o arco
De nossa abóbada
Que mostrava com
Exatidão e carinho
A sombra no Sol de nossos dias.

Ulisses Góes, do livro
"À Sombra de Um Eclipse",
descansando ainda no ineditismo

Imagem do Fotógrafo: Colleen Pinski
Via National Geographic




Einstein

E então você se dá conta
que as noites são longas
e os anos são curtos.

Ulisses Góes




Caminhos de Betume

Você é o único vivo
no vapor da pressão
no vodu da maldição
na vertigem da queda
na violência do tiro.
Você sobrevive
pisando sobre todas
as vísceras expostas
das vítimas queimando
no asfalto marcado pelas
batalhas apocalípticas
vislumbradas nas elípticas
órbitas de seus olhos.


Ulisses Góes



Supercélulas

Enxergo muitos tornados à minha volta
jogando para o alto várias caixas de Pandora
lançando medos, demônios e aflições para fora
Desenhando nos céus olhos de insônia e revolta

Fora de mim estão arrancando flores e paredes
Ventos arrastando cotidianos para a destruição
Ventanias de máscaras e turbilhões de desesperos
Uma chuva de lágrimas açoitando as inércias
daqueles que flutuam nervosos em suas tormentas

E eu, atento, Caçador de Tempestades alheias
perseguindo as vítimas durante as catástrofes
resgatando os sobreviventes que em mim habitam
antes que tudo enfim se torne tão somente
escombros vazios num belo dia ensolarado.


Ulisses Góes



Legalizada

Poesia é o ópio
de quem escreve.
Eu planto poesia,
consumo e passo adiante.
Sou traficante
de versos.
O dono da boca
que libera lirismo
para os usuários
leitores corajosos.
Doze versos
causando overdoses.


Ulisses Góes


Sábado Saramaguiano

Um dia eu fui, mas a lembrança tão distante
já nem se lembra de mim naquela época cativante
Quarenta outonos com ventos frios e desiguais
Quarenta ciclos tentando diferentes finais

Hoje eu sou, mas no presente pouco de mim sou:
raposa em repouso na relva ouvindo rock arredio
arrancando saltos de dia para pegar raios de sol
caçando sonhos de noite num outro mundo sombrio

Enfim, serei, e nem sei de mim o que serei
se rei de um reino onde ainda nada saberei
se sábio conhecedor de fronteiras que nunca verei
se sonhador rindo dos limites que ultrapassei.

Ulisses Góes



Verso ventricular

Bem assim, sinto
um tom sintomático
ritmo automático
fluindo matemático
pulsando simétrico
dentro de um fluxo
constante sistemático

Então vem o descompasso
um sentimento descadenciado
uma arritmia em forma de desejo
lançando sem piedade
meu músculo involuntário
dentro de um imáginário
universo desgovernado
onde predomina o sintoma
do febril enamorado.

Ulisses Góes



Canção do Andarilho Holocênico

Na terra dos deuses descansei meus pés cansados
Andei livre e desesperado pelas montanhas desenhadas por mim
Desenterrei meus passos para relembrar as estrelas que segui
Desmontei altares e despedacei pedaços de orações alheias

Na terra dos descrentes desfraldei discursos flamejantes
Despenquei de penhascos gelados e deslizei pela linha do horizonte
Andei sobre as águas que descansam no copo meio vazio
Afoguei meus desassossegos que boiam no copo meio cheio

Na terra dos dragões derramei meus sonhos delirantes
Distante de tudo e de todos descobri desvios e declives
Demarquei minhas fronteiras e desloquei territórios
Caminhei entre demônios acenando para anjos no céu

Agora toda semana eu espero pelo fim do mundo
com esse meus incansáveis olhos de pecador
e meus pensamentos com gosto de vinho vindo de longe
Despertando a vontade em desvendar terras novas.

Ulisses Góes


Chuvakai

O sol já não me assombra
As nuvens fecham o tempo
e me dão frio, conforto e sombra.

Ulisses Góes



Sugestão

Está escrito neste verso
que é mais desafiador
seguir o caminho inverso.

Ulisses Góes



O Livro do Caçador Perseguido

Ele andava pelas trilhas frias e contava seus passos
Tropeçava nos pensamentos que deixava pelo caminho
Suas mãos silenciosas carregavam palavras estranhas
renegadas, construídas em um alfabeto secreto
sussurradas num dialeto lunático e discreto
quase um mantra cantado de trás para frente
orações exiladas largadas em frases indecentes

Ele caçava os lobos que os perseguiam à noite
Descansava nos bares enquanto fumava suas ansiedades
Guardava sua mente anestesiada em copos emborcados
Seus olhos mansos e escapistas despistando seu foco real
e marcando seu território com versos arrancados do mal
desabafados, escritos em um alfabeto secreto
rabiscados numa escrita desconhecida e indecifrável
aos olhos dos peregrinos pagãos rastejando pela estrada

Ele procurava as armadilhas escondidas na madrugada
Iluminava a escuridão com suas preces flutuantes
Pisava no sangue dos condenados e dos ignorantes
Suas sombras malditas guardando tuas mitologias delirantes
tuas histórias reencarnadas em ciclos entorpecentes
contadas, relatadas através de um alfabeto secreto
proferidas numa língua febril e herética
por demônios com corações de veludo
e anjos feridos com almas de pedra.

Ulisses Góes



Sete Tragadas

Ventos noturnos do Norte trazem silêncios
e vultos cortejando a porta de tuas ideias
tuas Atenas, tuas Afrodites, tuas Medeias
flutuando na fumaça de teus Desejos pagãos

fleumático na forma como observa os vãos
por onde as sombras sopram seus temores
você ensaia versos e manifesta dores
Sufoca Desesperos e Destrói intenções
paquera Delírios e desenha Sonhos
Condensa seu tempo em montes de cinzas
Estuda o truque, elabora a ilusão
a lâmina cega observa e vela sua escuridão

Tua sinestesia implacável te envolve
Teu gole é pesado e negra é tua respiração
Teus dias dormentes e tuas noites lentas
Teus pensamentos um comboio sem direção
Teu coração uma bomba num quarteto de cordas
drenando sangue, jorrando vontades, liberando hordas
de anjos caídos sensibilizados pela tua oração fatal
de tentar entender tuas perpétuas sensações
a riscar as linhas da vida de seu Destino mortal.

por Ulisses Góes






Versos Sabáticos II

Eu tenho um pequeno livro preto com meus poemas
Tenho uma caixa cheia de cartas do século passado
Tenho músicas que ninguém faz questão de ouvir
Tenho setenta canais na TV para a hora de dormir
Eu tenho downloads guardados e uma conexão
e sonhos, delírios e uma maldição
Eu tenho canetas que nunca mais usei para escrever
Eu tenho nicotina dos outros em meus pulmões
Tenho meia garrafa de vinho na geladeira
Eu tenho excesso de iodo em meu sangue
Tenho vagas lembranças dormindo ao som de Pink Floyd
Tenho uma infância setentista
um apanhador de sonhos em minha mão
e uma risada acompanhada de um gosto estranho
de verdade e ilusão.

Ulisses Góes



08011942

Sou Caçador de Tempestades
perseguindo temporais antes dos desastres
Garimpeiro de Versos Perdidos
desenterrando preciosidades poéticas
Devorador de Palavras Malditas
mastigando sonoridades fonéticas
Colecionador de Escuridões Silenciosas
engarrafadas em frascos de vidro azul

Sou Guardião de Deuses Pagãos
protegendo epopéias e odisséias
Cavaleiro da Ordem dos Infernais
sangrando as chagas da ignorância humana
Agregador de Lógicas Ocultas
equacionando verdades paradoxais
Guardador de Fraquezas Habituais
alimentando demônios sob controle
Soldado de Batalhas Mediterrâneas
procurando sempre o olho do inimigo
Sou Astronauta de Histórias Siderais
Sopro supernovas condensadas
para dentro de buracos negros
implodo e aniquilo
explodo e recrio
o Verso em mim novamente.

Ulisses Góes



Queda Livre

Essa tensão fragilizada tão firme
sobrevivendo em intervalos rápidos
enquanto respiramos este ar tenso
intensificando o tempo relativo
ativando nossa eternidade que não dura
Eu sei que não dura para sempre
Mas que sempre está fluindo

Existe algo de mágico sugando o ar
Algo trágico tentando nos sugar

Essa estranha obsessão de cinema
cercando nossos limites numa tela de LCD
Nunca conseguimos entender o motivo
O princípio ativo desse ópio relativo
ativando nossa obscura humanidade
Nessa nossa idade dissimulada
que simulou uma cruel fuga armada

Existe algo de místico em nosso sonhar
Algo plástico causando nossa falta de ar

Essa sensação artificial de sabor "doce"
Esse amor voando em colapso puro
Descendo vertiginoso na estratosfera
Esse sentimento atordoante nos espera
Existe algo radical em nossas mãos
Mas nada lógico em nossos planos

por Ulisses Góes,
abril 2010



Diário de um Astronauta

Todos os dias eu acordo de paraquedas
com um gosto dormente de nostalgia na boca
o dia se rasga numa manhã sedosa
enquanto eu tiro meu capacete
e respiro toda a putaria rotineira
impregnada no ar venenoso deste mundo

Caminho descalço até janelas abertas
enxergo o sol sangrando dourado e suave
sinto o leve odor agridoce da rotina que exala
como um gás entorpecente um odor indecente
preparando as pessoas para "batalhas diárias"

Monitoro silencioso esse mundo antropofágico
de compartilhamentos e de curtições
onde as bruxas estão à solta caçando a si mesmas
Passeatas explodem como jardins pelas praças
Estradas cheirando a sangue e gasolina
A morte banalizada, doce como açúcar
Os choros de lágrimas batizadas com morfina
tudo fluindo intenso em veias de adrenalina

Observo os satélites riscando o infinito escuro
bombardeando com sequências dementes de imagens
os marginalizados e os estúpidos
sorrindo e gritando nas arquibancadas dos estádios

Sinto um abalo na força
interceptaram meu sinal poético
Fim da transmissão...

Ulisses Góes



Descoberta

O que vejo é o meu Desejo
Perto respira e espera o Desespero
Flores balançam em Delírios
Desse lado a sombra do Desolado
Dissimulado o Destino solta sorrisos
Diante do Sol que despenca
Despreendido como um sonho
Dreams in my hands
Desires in my mind
Destiny in my eyes
Sem o calor do Sol, sento na janela
e sinto o ardor na dor doce
da candura mansa que desfila em teus olhos.

Ulisses Góes

versos escritos sob influência
dos quadrinhos de Sandman, uma
criação fascinante do escritor
inglês Neil Gaiman.




Colisão

Desculpe, mas não seguirei tuas rígidas métricas
aqui estou eu debochando de suas cadências milimétricas
Meus versos são deliciosas sangrias volumétricas
descontroladas inundando o chão de sua sala
beijando seus pés numa cena em slow motion
Desconstruo meus versos no limiar do assimétrico
sem rampeiras sem lavadeiras sem eiras ou beiras
sem capoeira sem trovador sem jagunço
Pinto vodus líricos exorcizando rimas dementes
poesia cáustica cauterizando mentes caducas
corroendo seu tédio sua apatia sua rotina
Não foi um meteoro que exterminou os dinossauros
Não foi Deus quem arquitetou esse desconjuntado mundo
Não espere que eu simplesmente siga você
Nem espere que eu curta tudo aquilo que você escrever
Apenas preste atenção ao tremor de meus escritos
Provocando esse abalo sísmico sem pudor
Sinta o derramamento cínico de minhas palavras
Essa chuva ácida liberando um sutil ardor
nas descaradas meninas dos teus olhos
rindo de tudo o que sempre escrevo.

Ulisses Góes, setembro 2011



Drummond conectado

No meio da conexão tinha um tweet
tinha um tweet no meio da conexão
tinha um tweet
No meio da conexão tinha um tweet.

Nunca me esquecerei dessa mensagem
na vida de minhas retinas tão conectadas.
Nunca me esquecerei que no meio da conexão
tinha um tweet
tinha um tweet no meio da conexão
no meio da conexão tinha um tweet.

Ulisses Góes

minha releitura em homenagem
ao poeta Carlos Drummond de Andrade



poema

pétalas, palavras, pronúncias
pistolas, pessoas, prenúncios
provas, pratos, prantos
prerrogativas, propostas
perdas, perdições, perversões
pêras, pirâmides, paisagens
passeios, paçocas, pássaros
pronto, ponto.

Ulisses Góes



As areias de Corsica

Você é uma bênção. Um elo cativante.
A raiz das conexões incessantes.
O salto nos ventos dos horizontes.
Uma ilha ensolarada acima do Meridiano.
Você está na velocidade dos meus pensamentos
na dança descalça dos meus passos na praia
na música aprisionada em minha mente
no meus pés molhados e no meu olhar pensativo.
Você é uma sublimação. Uma essência constante.
Você criou minhas lembranças mais fortes
gerou meus versos mais lindos e corajosos
amanheceu meus dias mais impressionantes.
Você é uma poesia. Uma tradução divina.
Transmutação de sentidos, levitando meu
corpo e meu espírito para além do limite
onde perco o meu senso de gravidade.

Ulisses Góes

Os ventos de Kandahar

O deserto cruel apaga tuas pegadas
Evapora de teus poros
O suor de tuas conquistas
Deixando apenas o calor insistente
De tuas lembranças remotas
Caminhar numa jornada de amores perdidos
Contar os grãos de areia
Imaginar o mar, amar o distante
Guardado dentro do pensamento
E mesmo assim, diante de imensa distância
Enxugar tua lágrima, abraçar-te
Afogar tuas tristezas, guardar teu sono
E manter acesos os clarões sutis
Na escuridão que agora nos envolvia.

Ulisses Góes
 
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