quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Bloqueio

 
Um flash momentâneo cegou a visão do Escritor Astronauta, balançando a cabeça por causa da leve tontura que sentira. Devia ser a quinta vez que sua mente rodopiava em decorrência da sensação estranha de torpor provocado por aqueles flashes ocasionais. Apoiou-se no cabo da vassoura por alguns segundos, respirou fundo e procurou seguir com sua tarefa. Olhou ao redor, mirando toda a amplidão daquele hangar vazio e tentando imaginar há quanto tempo estaria ali varrendo o chão daquele lugar. Estava muito incomodado por não conseguir se lembrar como chegou ali e nem porque estava varrendo a poeira daquele imenso espaço aparentemente abandonado. Tinha uma lembrança meio distante a respeito de uma história que estava escrevendo atualmente sobre três jovens que encontram um objeto maligno e que estão correndo perigo por conta desta descoberta. Parou de varrer e novamente olhou calmamente o hangar ao seu redor. "Não é possível. Será que estou tendo uma crise criativa e estou sem ideias para continuar desenvolvendo a história?", indagou o Escritor para si mesmo. Era difícil obter respostas quando a mente parecia mergulhada numa piscina de amnésia flutuante, boiando em meio a memórias esquecidas e lembranças afundadas. "Eu tenho essa lembrança meio distante de estar escrevendo essa história, e de estar em uma parte da narrativa onde os personagens parecem estar em perigo... Acho até que me lembro quem estava perseguindo eles... Ou não", o Escritor esboçava uma expressão confusa no rosto, enquanto procurava organizar suas ideias a respeito do vácuo que se instalou em sua memória naquele momento. A impressão que ele tinha era como se todas as ideias tivessem desaparecido sem deixar pistas esclarecedoras. Fechava os olhos, e tudo o que conseguia visualizar era uma imensidão branca ao seu redor. Estava quase certo de que não escrevia nada há dias, ou semanas. Aquele pensamento súbito lhe causou calafrios de ansiedade, pois tratava-se de uma situação que poderia causar um atraso irreversível na conclusão de seu livro. O Escritor sabia que seu receio pelo pior tinha fundamento, pois já havia passado por períodos de crise criativa anteriormente, quase deixando de finalizar histórias por falta de ideias para concluir suas obras. "Isso não pode estar acontecendo de novo. Eu lembro que tinha ideias elaboradas, inclusive algumas delas rabiscadas em papéis, rascunhos breves de como seria desenvolvida toda a construção da narrativa. Creio ter deixado esse material sobre a mesa". Então uma nova crise de ansiedade percorreu seu corpo disfarçado como mais um calafrio inevitável ao se recordar do que aconteceu quando Salomé, a diarista que duas vezes por semana fazia uma faxina completa em seu apartamento, acabou limpando sua mesa e, por engano, jogou todos os seus rascunhos no lixo. Em parte, a culpa pelo ocorrido partiu de seu descuido em não explicar para Salomé que aqueles papéis em sua mesa constituiam material importante para seu trabalho como escritor, e que nada ali poderia ser jogado fora. Após o infeliz acidente, o Escritor procurou ser mais detalhista sobre as atividades da empregada baixinha e faladeira na limpeza do apartamento, orientando a diarista a respeito de suas tarefas domésticas. Ainda assim, foi uma experiência traumatizante para ele, pois alguns trechos vitais do livro que estava escrevendo na época acabaram no lixo junto com embalagens amassadas de café, potinhos de requeijão cremoso e restos de refeições, e reescrever tudo de novo exatamente como havia sido escrito da primeira vez foi praticamente impossível. De maneira alguma queria passar por aquilo novamente. Continuou varrendo, enquanto forçava sua mente a se lembrar de algo, e após alguns longos minutos que pareceram mais horas intermináveis, avistou uma placa informativa pregada em uma parede ao longe. Sem enxergar direito o que estava escrito nela, percorreu a enorme distância movido por uma curiosidade incômoda. Aproximou-se da placa prateada fixada na parede do Hangar e leu a informação em letras douradas: "BLOQUEIO CRIATIVO". Seu coração disparou movido por uma angústia silenciosa. Ao se deparar com aquele aviso inquietante, conseguiu resgatar uma recordação sobre aquele enorme espaço, e finalmente encontrou a explicação de que precisava para entender parte daquela situação. Aquele hangar vazio era a maneira que seu cérebro anunciava quando as ideias estranhamente desapareciam e seu processo de criação estagnava. Já esteve ali em outras ocasiões difíceis. Parou de varrer e olhou para o teto. Notou que havia algo de errado na sua presença naquela vasta estrutura feita de metal, silêncio e falta de ideias.
Olhou a viseira de seu capacete, procurando ativar alguma informação, mas não conseguiu obter qualquer sinal ou conexão. "Tenho a impressão de que aqui você não vai obter nenhuma informação que deseja dessa maneira", disse uma voz educada atrás do Escritor, que virou-se com ar de surpresa por se deparar com a presença inesperada. Deu uma boa olhada na figura pequena e despojada daquele senhor idoso com uma face de traços orientais marcada por um bigode e um cavanhaque brancos, e com uma careca rodeada com o restava de seus cabelos grisalhos. Vestia um quimono branco e preto no melhor estilo Pai Mei e seu olhar era tão sereno quanto suas palavras. "Não esperava você novamente aqui tão cedo. Imaginei que você demoraria a escrever uma nova história", disse o pequeno homem sem desviar seu olhar impassível. O Escritor olhou para os lados, intrigado com aquela aparição repentina. A entrada mais próxima que avistou foi uma porta que ficava cerca de 800 metros do outro lado do Hangar. "Eu conheço você?", indagou encarando o idoso baixinho parado à sua frente. "Como é de se esperar, o bloqueio impede você de reconhecer suas incapacidades anteriores e apaga de sua memória as visitas anteriores que você fez aqui", disse o pequeno homem, que não aguardou outros questionamentos do Escritor para continuar com suas explicações, "Sim, você me conhece e já tivemos este encontro outras vezes, sempre neste mesmo ambiente, uma criação de sua mente nos momento em que ela sofre um bloqueio criativo, uma vasta projeção gerada pela paralisia das ideias, ansiedade proporcionada pelo descontrole do texto criado, ou simplesmente por encarar uma página em branco e não saber o que escrever". "Então quer dizer que já nos vimos antes? Meio difícil de acreditar, principalmente porque não me lembro de você", disse o Escritor meio confuso, "Se esse aqui é meu bloqueio criativo, quando eu conseguirei sair daqui?". "Sua saída deste lugar vai depender apenas de sua capacidade de lembrar o motivo que o trouxe aqui", respondeu o pequeno senhor. "Afinal de contas, quem é você? Alguma espécie de projeção que minha mente criou para me fazer companhia enquanto fico varrendo esse lugar gigantesco?", questionou o Escritor um pouco nervoso, enquanto sacudia a vassoura diante do olhar irredutível do senhor de olhos puxados. "Sim, você está certo. Você me criou como o Guardião do Hangar. Estou aqui para confrontar suas dúvidas e lhe dar a oportunidade de encontrar sua saída daqui de forma espontânea. Venha, me acompanhe", a figura baixinha do senhor virou-se e seguiu caminhando em direção ao centro daquele enorme lugar vazio. O Escritor, logo atrás, formulava novas perguntas, "Espere, para onde estamos indo? E que história é essa de espontâneo? E por que eu criei um Guardião nanico e careca que me confunde mais do que me ajuda?", Prestes a formular mais questionamentos, o Escritor foi bruscamente parado por um gesto rápido e ríspido do Guardião, que levantou a mão na altura de sua cabeça. Silenciosamente, ele uniu as palmas das mãos junto ao peito e fechou o olhos. Em seguida, ensaiando movimentos de luta marcial semelhantes ao Kung Fu, golpeou com um dos pés o chão, provocando um estrondo impressionante que fez levantar um perfeito bloco de concreto. A imensa pedra polida pairou por microssegundos no ar antes de cair, tempo suficiente para o buraco surgido no chão desaparecer sem deixar vestígios. Depois que uma leve camada de poeira se dissipou no ar, o Escritor Astronauta percebeu que havia um arquivo incrustado no bloco. Sem muita cerimônia, o Guardião se aproximou, puxou a segunda gaveta, pegou uma pasta com papéis e começou a folhear os documentos em suas mãos. "Aqui estão todos os processos de seus bloqueios criativos já ocorridos. Não são muitos. Aqui estão informações de quando ocorreram, os motivos dos mesmos terem surgido e como você conseguiu quebrá-los. O último aconteceu por culpa de Salomé, a sua diarista", explicou, entregando os documentos para o Escritor. "Sim, eu me recordei disso agora mais cedo. Foi uma situação complicada, pois tive que me controlar para não xingar a coitada. O pior de tudo foi reescrever todos os trechos que eu havia rascunhado. De qualquer forma, eu aprendi com a desastrosa experiência, e passei a ser mais cuidadoso com meus papéis escritos", comentava o Escritor, andando calmamente de um lado para o outro, "Mas agora, pelo que me lembro, o bloqueio tem a ver com a história em si. Eu estava escrevendo, e então, num determinado ponto, a história fugiu ao meu controle. É isso. Sim! Eu me recordo agora, não o suficiente ainda, mas eu começo a me lembrar". A partir de então, tudo se tornou mais complicado para ser resgatado da memória do Escritor angustiado com a dificuldade do momento. Virou-se impaciente para o Guardião, que pegou pasta de suas mãos e a colocou de de volta no arquivo sem demonstrar qualquer sentimento de pena ou solidariedade com o sofrimento de seu criador. Um novo movimento, mais um golpe poderoso de seu pé, e ele fazia o chão se abrir perfeitamente para receber de volta o bloco de concreto com aquele arquivo precioso. "Você conseguiu recordar de maneira espontânea que seu bloqueio atual teve início porque você perdeu, em determinado momento de sua criação literária, o controle de sua história. Esse é o caminho", disse o Guardião, novamente encarando o Escritor com seu olhar impassível e calmo. "Sim, esse é o caminho. Mas tem algo errado que eu ainda não enxerguei", refletiu o criador de narrativas, "De fato, eu perdi o controle de minha história, mas é preciso haver um motivo para a perda do controle. Qual situação motivou, ou quem?...". Um flash de pensamento começou a pulsar tão rápido quanto um piscar de olhos em sua memória. No início, o pensamento formava a imagem de um rosto desfocado, até que gradativamente e cada vez mais veloz, a imagem pulsou em flashes em sua mente, até que fez surgir uma imagem translúcida bem ao seu lado, mostrando um rosto bem definido ladeado por uma sequência de informações esclarecendo quem era aquela pessoa. Mirou atentamente a imagem e soltou um grito, "Flávio! Sim, agora me lembro! É por causa dele que estou experimentando esse novo bloqueio criativo! Ele me lançou para cá!". Em uma fração de segundos, sua mente foi invadida por diversas lembranças numa velocidade alucinante. Sua história, o Livro da Morte, Hemilly, Henrique, Roney, o trecho em que ele narrava como Flávio descobriu que era personagem de um livro, o detector de textos incontroláveis oferecido pelo seu amigo Ramon, a estranha caneta encontrada, o texto resgatado. Entusiasmado, o Escritor podia sentir todas as suas memórias retornando intensamente. "Percebo que você recuperou toda sua memória, inclusive a memória dos fatos ocorridos após o resgate de seu texto feito pela caneta", observou o Guardião do Hangar. "Sim", respondeu o Escritor com um leve sorriso no rosto, "Eu me recordo de estar sentado no sofá em minha sala. Eu estava relendo o meu texto que a caneta havia recuperado, então senti uma dificuldade repentina em respirar semelhante a que senti quando Flávio surgiu da primeira vez na minha frente. Logo em seguida, fiquei tonto, e percebi uma névoa negra rodopiando nervosa ao meu redor. Procurei meu capacete, mas antes que eu pudesse colocá-lo, senti uma pancada forte em minha cabeça. Caí no chão meio desacordado, Flávio veio para cima de mim com uma seringa na mão. Senti uma picada fina em meu pescoço e desmaiei. E então acabei aqui na minha projeção criada pela minha mente, conversando com um Guardião baixinho parecido com Sr. Miyagi." Assim que terminou de libertar suas memórias mais recentes, o Escritor sentiu tremores no chão. Olhou para os lados e viu o imenso Hangar começar a ruir. Toda a estrutura de metal e concreto estava caindo por toda parte provocando um barulho quase ensurdecedor. "O que está acontecendo?", gritou assustado o Escritor. "O seu bloqueio criativo foi rompido. Você conseguiu quebrar as barreiras que o impediam de seguir adiante. Não vai demorar muito para tudo aqui desmoronar completamente", explicou o Guardião, "É aqui que mais uma vez nos separamos. Boa sorte. Que você consiga terminar a sua história", disse, virando e sumindo calmamente no meio dos escombros e entulhos que se formavam em toda a área do Hangar. Sem saber para onde correr, o Escritor tentou se proteger dos pedaços de metal que caíam. Quando uma viga enorme de aço estava prestes a lhe atingir em cheio, uma descarga de adrenalina invadiu seu corpo e um flash tomou conta de sua visão. Acordou sobressaltado, com o coração acelerado, o rosto suado, no chão da sala de seu apartamento. Ainda um pouco ofegante, olhou para a mesinha de centro. A caneta e os papéis com seu texto resgatado ainda estavam ali.

Escrito por Ulisses Góes
Fotografia: Hunter Freeman
 
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