terça-feira, 15 de abril de 2014

O garoto HOb fechou o livro com cuidado e continuou fitando o Escritor Astronauta com atenção. Não estava mais espantado, e agora deixava transparecer em seu rosto uma sutil expressão de contentamento denunciada por um leve sorriso quase imperceptível. Ele parecia compreender que o Escritor fôra transportado para dentro do universo de sua leitura, fato que o agradava muito. Já o Escritor, agora agachado diante daquele jovem de dons fantabulosos, estava maravilhado com a experiência que vivenciou momentos atrás, apesar das situações que se fizeram aterrorizantes diante de si. "Peço desculpas se assustei você. Eu penso que tinha me afastado o suficiente para que ninguém pudesse ouvir minha leitura. Eu adoro livros de terror, e as pessoas sempre se assustam quando eu leio eles", disse o garoto HOb, ainda olhando curioso para o Escritor, que não demorou em responder, "Não precisa se desculpar. A culpa foi minha. Eu estava terminando de escrever algo e eu não fazia ideia das consequências que as palavras de minhas história causariam". A explicação, por mais superficial que pudesse parecer, despertou no garoto uma curiosidade aguçada,e não demoraria mais do que meia respiração sua para começarem a surgir perguntas intrigantes buscando respostas esclarecedoras imediatas. E foi o que aconteceu. "Você é escritor?", questionou o jovem HOb fascinado. O Escritor respondeu afirmativamente, explicando logo em seguida a respeito do livro que estava escrevendo para o jovem ouvinte extremamente atento. E a conversa abriu espaço para uma sequência de perguntas a respeito de sua obra que nem o próprio Escritor Astronauta esperava. O garoto elaborava perguntas que iam desde simples indagações sobre os nomes dos personagens até intrigantes questionamentos sobre quais influências literárias o levaram a escrever uma história no estilo narrativo que havia escolhido. Enquanto respondia as perguntas, o Escritor começou a sentir um formigamento criativo nas ideias em sua mente, sugestões de desdobramentos da história foram surgindo numa velocidade impressionante à sua frente. Sacudiu a cabeça rapidamente e olhou para o jovem HOb, que o fitava com aquele contínuo olhar de curiosidade, aguardando suas respostas. Impressionado com aquela sensação produzindo coceiras em seu cérebro, o Escritor Astronauta respondeu a mais uma pergunta do garoto atento e então o olhou fixamente na direção de seus olhos que pareciam conter em si constelações brilhantes de infinitas histórias já lidas. "É você que está causando essa sensação inquietante em mim?", perguntou o Escritor, "Eu nunca senti algo assim antes. Essa vontade intensa de continuar escrevendo e terminar minha história o quanto antes para que você possa ler". "Eu não sei. Acho que sim... Eu nunca encontrei um escritor antes", disse o garoto. O Escritor parou um momento, os pensamentos se organizando em sua mente, procurando caminhos explicativos. "Você fez tantas perguntas, mostrou tanto interesse na história que estou escrevendo. É como se eu fosse secretamente incentivado a continuar escrevendo, pois meu livro pronto seria a resposta mais definitiva para todas as suas perguntas". O jovem HOb sorriu, e esse sorriso era o sinal de que ele concordava com a explicação oferecida pela Escritor. "Posso ler um trecho de sua história?", perguntou o garoto enquanto guardava em sua mochila o livro que estava lendo momentos antes, cuja capa estampava um grupo de zumbis perseguindo jovens sobreviventes. "Sim, claro, posso mostrar alguns capítulos para você".
Nesse exato momento da conversa, o Escritor Astronauta sentiu sua cabeça pesar levemente numa tontura estranha, incômoda durante os segundos em que persistiu quase como um desmaio. "Você está sentindo alguma coisa?", perguntou o garoto, demonstrando certa preocupação no comportamento do Escritor, que tentou responder, mas foi impedido pela tontura seguida por uma falta de ar sufocando suas palavras. Caiu de joelhos amparado pelo jovem HOb, enquanto um pequeno aviso de ALERTA começou a piscar insistente em vermelho na viseira de seu capacete, seguido por diversas informações translúcidas deslizando velozes determinando alterações em seus batimentos cardíacos, queda constante da temperatura de seu corpo, além de outros súbitos distúrbios nos sinais vitais de seu corpo. "O que está acontecendo?", perguntou o garoto, aflito, observando o Capacete do Escritor congelando por dentro, criando pequenas crostas de cristais de gelo e fazendo o ar dentro do traje condensar-se aos poucos, quase impedindo de ver o rosto do Escritor em meio àquela névoa congelante. "O capacete! Tire o capacete!", gritava o jovem HOb ao mesmo tempo em que tentava desesperadamente livrar o amigo daquela situação. "Sim, preciso tirar o capacete...", pensou o Escritor, e com movimento súbitos destravou o capacete de seu traje, provocando uma rápida sensação de alívio por conseguir respirar novamente. "Está tudo bem com você?", perguntou o jovem HOb antes de sentir brisas congelantes saindo de dentro do traje do Escritor. "Não sei", respondeu o Escritor ainda ofegante e tonto, "Ainda estou tonto". Olhou para o garoto e percebeu que sua visão estava levemente turva, como se houvesse uma névoa atrapalhando ele de enxergar com mais nitidez. Esfregou as mãos nos olhos, e quando olhou ao redor, constatou surpreso algo mais estranho. "Não entendo. Tudo ao nosso redor está desbotando". "Desbotando? Você quer dizer perdendo as cores?", indagou o jovem HOb intrigado. "Exatamente! Onde nós estamos as cores ainda estão vívidas", o Escritor, ainda ajoelhado diante do garoto, olhou para a grama logo abaixo deles e apontou, "Está vendo? Aqui o verde está mais verde. Mas ali do outro lado a grama está ficando pálida, quase cinza". O jovem HOb ficou cismado com a situação descrita, como se já soubesse o que de fato estava acontecendo com o Escritor. "Por acaso sua visão está ficando embaçada quando você tenta olhar para algo mais distante?", perguntou o garoto. "Sim", respondeu o Escritor, "assim como a visão de uma pessoa míope". Ao ouvir isso, o jovem HOb levantou-se demonstrando alguma aflição, andando de um lado para o outro da maneira nervosa, esfregando as mãos enquanto murmurava perguntas. "Será que está acontecendo de novo? Mas como pode acontecer sem eu perceber? Como isso é possível? Talvez seja coincidência, e eu esteja nervoso à toa. Ou eu não estou mais conseguindo sentir?". Um estranho pressentimento fez o garoto meter a mão em sua mochila para procurar o livro sobre zumbis que estava lendo. Pegou o livro e assim que olhou fixamente a capa, abriu e começou a folhear as páginas. Seus temores se confirmaram quando ele passou várias folhas e percebeu que as palavras estavam começando a desaparecer lentamente, como se a tinta impressa sumisse pela ação do tempo. "Veja, atrás de você", disse o Escritor, ainda tonto e sem ar, apontando para a grama logo atrás do garoto. "Está desbotando cada vez mais perto. O que está acontecendo?". "Eu sei o que está acontecendo!", respondeu aflito o jovem HOb, guardando imediatamente seu livro na mochila e revirando-a em busca de outra coisa que sempre trazia consigo. Nesse momento sua visão começou a embaçar. Aquela sensação desagradável de "pupilas dilatadas pelo colírio do Oftalmologista" o deixou mais aflito ainda, pois era uma sensação que não lhe trazia boas lembranças. Então conseguiu encontrar seu pequeno livreto azul de anotações e abriu em uma página contendo um pequeno texto com o singelo título "Biblioteca" escrito com sua caligrafia. "Não se preocupe, eu vou tirar a gente daqui agora", disse o garoto para o Escritor, ajoelhando-se ao seu lado e agarrando seu braço com força, enquanto aproximava e afastava o livreto de seu campo de visão, tentando encontrar o melhor foco para ler seu texto. "O que você vai fazer?", questionou o Escritor, quase perdendo os sentidos. "Vou transportar a gente para outro lugar longe daqui", respondeu o garoto antes de encontrar a distância exata para ler seu texto. E poucos segundos antes que tudo ao redor deles desbotasse completamente a ponto de se transformar numa cinzenta paisagem borrada perdida em meio àquela névoa assustadora, o garoto conseguiu ler seu texto, criando um ponto luminoso condensado que sugou os dois instantaneamente numa fissura espacial. Enquanto o seu jovem amigo HOb lia as páginas de seu pequeno livro de capa azul, o Escritor Astronauta viu centenas de estantes surgirem ao redor de si em uma velocidade impressionante e serem imediatamente preenchidas com milhares e milhares e milhares de livros. A tontura diminuiu, sua respiração voltava ao normal gradativamente, assim como sua visão ficava cada vez mais nítida, até o momento em que percebeu que ambos estavam ajoelhados no meio de uma imensa biblioteca municipal.
"Onde estamos?", perguntou o Escritor. "Meu refúgio. Venho sempre para cá quando sinto algum perigo me cercando", explicou o garoto. O Escritor Astronauta deu uma boa olhada ao redor e estranhou o tamanho descomunal do lugar, tão alto que mal dava para definir quantos andares deveria realmente ter, e com corredores de estantes tão compridas que também não se podia definir sua extensão exata para qualquer lado que olhasse. Para todos os lados haviam prateleiras de livros, e em todos os cantos haviam montanhas empilhadas de livros, pelas escadas, perto de algumas estantes, em diversos corredores. "Esse lugar existe de verdade?", indagou o Escritor. "Existe sempre que preciso dele", respondeu o jovem HOb. "E como viemos parar aqui?", mesmo tendo um leve suspeita de como tudo aconteceu, o Escritor queria ouvir a explicação do garoto, que mostrou para ele o livreto azul ainda em suas mãos. "Eu escrevo sobre lugares que eu gostaria que existissem ou lugares que existem e onde eu gostaria de estar. E uma vez eu descobri que quando eu lia os textos escritos por mim, eu acabava sendo transportado para esses lugares descritos em meus textos". O garoto sorriu com a própria explicação, ciente dos dons literários que hava descoberto quando criança. "Mas por que ainda permanecemos aqui, mesmo depois que você parou a leitura?", questionou o Escritor, tentando entender um pouco mais a natureza do seu jovem amigo HOb. "Não demorei muito em descobrir porque eu permanecia nos lugares relatados nos textos que eu lia mesmo depois que eu terminava a leitura. É simples. São textos escritos por mim. Eu consigo teletransportar para onde eu quiser, desde que eu escreva sobre os lugares para onde desejo ir". "Então é por isso que ainda estamos nessa biblioteca enorme? Por que você criou esse lugar em sua mente e escreveu sobre esse ele?", outra pergunta que o Escritor já sabia provavelmente a resposta. "Sim. É diferente de quando eu leio um livro escrito por outra pessoa. Eu habito o universo criado por outra pessoa apenas enquanto eu estou lendo a história, assim como quem estiver ouvindo minha leitura. Quando eu paro de ler, tudo desaparece de repente. Venha, preciso mostrar algo para você", disse o jovem HOb com empolgação, puxando o Escritor pelo braço. Caminharam durante longos minutos subindo escadas, passando por estantes, pilhas de livros, o Escritor admirado com todo aquele lugar imaginado pelo garoto que ia mostrando detalhadamente cada setor que inexplicavelmente existia naquela biblioteca. Passaram por um andar inteiro dedicado a livros que nunca foram publicados por diversos motivos, um outro andar era dedicado a obras que os próprios autores se recusaram a publicar por considerarem ruins demais, com textos supostamente mal escritos ou histórias com enredos mal desenvolvidos. Depois de mais alguns lances de escadas, chegaram ao local que o jovem HOb queria mostrar ao Escritor Astronauta. Era um andar dedicado a livros que ainda não foram publicados porque ainda estavam sendo escritos pelos seus autores em tempo real. "Eu chamo esse lugar de Setor dos Livros ainda Inéditos", disse o garoto, eufórico, "Pegue qualquer livro e você verá as palavras ainda nascendo pelas páginas, enquanto o autor vai criando a história". Completamente espantado, o Escritor considerou aquilo surreal demais. Passou os olhos pelos livros na estante, e descobriu nomes de autores mundialmente famosos compondo a paisagem impressionante de obras inéditas naquelas prateleiras. Parou, atônito, diante do tomo grosso de um livro na estante, estampando o nome do romancista George R. R. Martin. Puxou a enorme obra e leu na capa o título em inglês "The Winds of Winter". "Isso não pode ser verdade", pensou o Escritor, soltando uma risada nervosa quando começou a folhear algumas páginas, lendo diversos trechos da obra. Passou mais algumas páginas ansioso e percebeu que perto da metade do livro em diante, as páginas estavam em branco. Na estante ainda havia um outro tomo que trazia o nome de George R. R. Martin. Estava prestes a tirá-lo da prateleira quando a voz do garoto gritando alguns metros adiante chamou sua atenção. "Aqui! Parece que é esse aqui! Venha ver", dizia o jovem ao tirar um livro da estante de obras ainda inéditas. O Escritor colocou de volta o grosso livro que havia encontrado e, movido pela curiosidade, foi encontrar o jovem HOb para saber o que ele realmente queria lhe mostrar. Aproximou do garoto que folheava um outro livro com curiosidade intensa. "Sim, eu encontrei! É ele mesmo", disse o jovem. "O que você encontrou?", perguntou o Escritor, enquanto se aproximava. O garoto HOb ergueu o livro diante de seus olhos como um troféu conquistado por um grande feito heróico, "Seu livro. Encontrei o livro que você ainda está escrevendo!".

Escrito por Ulisses Góes

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A primeira sensação experimentada ao abrir os olhos com certa dificuldade foi uma tontura, e logo em seguida o Escritor sentiu aquela dor forte pressionando suas têmporas. As imagens translúcidas na viseira de seu capacete mostravam informações desconexas e incompreensíveis, saindo do ar constantemente. Afastou todas aquelas informações da viseira, e percebeu que já era noite. Era possível que tivesse ficado desacordado por algumas horas ali no meio da rua, mas estranhou o fato de que não tivesse sido socorrido por ninguém que estivesse passando pela rua no momento daquele estranho acidente literário. Levantou-se e ficou surpreso ao constatar que a cidade estava completamente às escuras, mergulhada num blecaute sinistro. Deu dois passos, e sentiu novamente a dor latejando em sua cabeça, dessa vez com menos intensidade. Parou no meio da rua, olhando para os lados. Havia algo de perturbador ao redor, uma sensação estranha de abandono e perigo. Ao longe, na esquina no fim da rua, a cena de um carro aparentemente abandonado pegando fogo o incomodou a ponto de ficar meio confuso no momento. Estranhas silhuetas movimentando-se lentamente surgiram ao longo da rua. Eram pessoas andando em uma cadência descompassada, arrastando-se com alguma dificuldade. Olhou na direção oposta e tudo o que conseguiu ver foi uma escuridão aterrorizante e gemidos medonhos. A rua realmente parecia deserta, carros parcialmente destruídos, lixo espalhado por todos os cantos, grama despontando em todos os lugares, nas fissuras entre os paralelepípedos do meio-fio, em rachaduras pelas calçadas e em toda extensão da rua cheia de buracos e pequenas crateras. O Escritor ficou intrigado com aquele cenário desolador que surgiu no espaço de tempo em que ficou desacordado ali. "Por quanto tempo fiquei aqui apagado?", indagou a si mesmo. Tinha a impressão de que havia ficado, no máximo, uns 15 minutos desmaiado, mas já era noite, e pelo fato de já estar escuro, considerou que talvez tivesse ficado mais tempo inconsciente. Os gemidos continuavam a surgir agora de todos os lados, um pouco distantes, mas insistentes. As pessoas no fim da rua continuavam se aproximando lentamente, se locomovendo como sobreviventes atordoados depois de um acidente. Buscou acesso às imagens translúcidas da viseira de seu capacete, e tentou fazer uma pesquisa rápida procurando notícias sobre aquele blecaute que aparentemente atingira toda a cidade, ou sobre qualquer acidente nas imediações de sua rua. Entretanto, não conseguia acesso a nenhuma informação, e todos os canais de comunicação que tentava conectar pareciam fora do ar, páginas virtuais, canais de mídia, nada funcionava. Decidiu acessar frequências de rádio, na esperança de que conseguisse obter qualquer contato. Deslizou pelas faixas e finalmente conseguiu algo. Equalizou o máximo que conseguiu a sintonia até escutar nitidamente o que dizia a voz pausada do locutor. "Atenção. Estamos transmitindo através de uma faixa emergencial... Ouça com atenção... Se você está nos ouvindo, então isso significa que você não foi contaminado pelo vírus e é um dos poucos sobreviventes da epidemia que se espalhou pelos continentes... Mantenha-se afastado dos grandes centros urbanos e procure abrigo seguro no interior, longe das cidades... As informações sobre o que realmente aconteceu ainda são poucas e desencontradas... Repito, não é seguro permanecer nas cidades...". A transmissão ficou novamente instável e quase inaudível. Tentou estabilizar outras faixas de sinais de rádio, mas sem sucesso. Jogou as imagens para fora da viseira do capacete, e elas flutuaram luminosas diante de si, girando todas sem sinal de acesso. Então repentinamente uma imagem fora do ar iniciou automaticamente tentativa sucessivas de sintonia. O Escritor se concentrou naquela imagem, buscando ajustar o sinal para estabilizar sua frequência, e após alguns segundos silenciosos, finalmente conseguiu. Acertou o foco e então conseguiu visualizar o que parecia ser uma página de um livro com um texto extenso contando uma história. Em seguida começou a escutar em uma faixa mal sintonizada uma voz em off lendo o mesmo texto daquela página numa narrativa típica de documentário, "Quando a epidemia se alastrou de forma exponencial por todas as cidades de todos os continentes, viver acabou se tornando um desafio extremamente cruel. Quem conseguia se manter imune àquela catástrofe biológica, tinha que sobreviver em um verdadeiro inferno dantesco. Eles estavam por toda parte, proliferando-se como uma praga devastadora, destruindo toda a civilização humana. Aquela doença, cujos primeiros sintomas eram febre intensa, vômitos constantes e convulsões, afetava várias partes do cérebro, destruindo importantes redes neurais e conexões vitais. A racionalidade dava lugar a um instinto insano e animalesco aliado a um canibalismo insaciável. O mundo estava sendo assolado por esse errantes mortos-vivos, criando um cenário aterrorizante e promovendo o colapso de todas as estruturas de desenvolvimento da raça humana. Era o início de um apocalipse com gosto profundo de sangue". O Escritor diminuiu o som meio chiado daquela voz jovem em sua narrativa ininterrupta, e com certo ar de espanto, olhou ao seu redor, ainda sem compreender direito o que ocorria. Aquele texto narrado parecia descrever perfeitamente o que estava acontecendo ao seu redor, contando em detalhes todo o processo apocalíptico que havia destruido o mundo civilizado. Olhou novamente para o lado da rua onde as pessoas continuavam andando com seus passos arrastados e se aproximando dele, e nesse momento o Escritor se deu conta de que aquelas pessoas eram exatamente os errantes citados no texto narrativo. Experimentou aquele calafrio típico de quem se apavora diante de uma situação perigosa percorrer todo o seu corpo, e uma descarga intensa de adrenalina fez disparar seu coração. Atrás daqueles errantes caminhando a esmo pela rua surgiram outras dezenas deles, gemendo assustadores.
"Transmissões de alerta numa frequência de rádio desconhecida. Gente morta se arrastando pelas ruas. Mas que desgraça está acontecendo aqui?", disse em tom de desespero. Olhou novamente para a imagem translúcida do texto e viu uma informação nova piscando no canto inferior direito da tela. Um minimapa mostrava um ponto pulsando e números que pareciam coordenadas geográficas. Logo abaixo, uma legenda avisava, "Detectado Marco Zero de Possível Transmissão Narrativa". Intrigado, o Escritor arrastou aquela informação para o centro da imagem e a ampliou. Após alguns segundos, reconheceu o mapa que aparentemente parecia ser de sua cidade, com um ponto brilhante pulsando insistente. Deduziu que aquele ponto pudesse ser a origem daquela transmissão narrativa, o que significava que havia alguém naquele lugar da cidade que provavelmente estava utilizando as faixas de emergência para enviar mensagens de alerta sobre o que estava acontecendo. O local não era muito distante de onde estava agora, e começou a considerar realmente que precisava sair dali o mais rápido possível, pois aqueles estranhos errantes se aproximavam com maior agilidade, talvez pelo fato de o terem visto ali parado no meio da rua. O Escritor recolheu as imagens translúcidas, deixando apenas aquele minimapa com o ponto piscante ativo no canto superior de sua viseira. Estava em meio a uma escuridão preocupante dominando toda a cidade. E aquela noite sem lua contribuia para que todo aquele cenário ao seu redor mergulhasse em um breu apavorante. "Preciso saber para onde ir nessa escuridão", pensou o Escritor enquanto imaginava o que poderia ajudá-lo naquele momento crítico. A resposta em sua mente veio logo em seguida, quando o dispositivo mental instalado em seu capacete captou seu pensamento reproduzindo a imagem daquilo que mais necessitava. Sua viseira adquiriu um brilho esverdeado, o que significava que havia acionado mentalmente o mecanismo de visão noturna. Escutou gemidos cada vez mais próximos, e assustou-se ao olhar para o lado de rua onde a escuridão predominava e ver uma legião de errantes se arrastando rapidamente a poucos passos de onde estava. Correu sem demora por um beco estreito que desembocava em uma outra rua paralela, e só neste momento se deu conta de que não estava reconhecendo nenhum daqueles lugares. Não se recordava da existência de nenhum beco ligando a sua rua àquela outra desconhecida. Viu, com certo terror contido, errantes por toda parte, andando a esmo, em meio a carros abandonados e virados pelo meio da rua. Tinha que manter sua atenção dividida entre as informações que surgiam a todo momento no minimapa e aquelas aberrações sinistras que surgiram cambaleando pelas ruas após a explosão literária que o atirou para fora de seu apartamento. Seguiu o ponto luminoso constante no mapa durante cerca de 10 minutos, se esgueirando por entre automóveis capotados e vielas sujas. Quase sem fôlego, se escondeu dentro de uma banca de jornais. Entre pilhas de revistas amassadas e rasgadas, agachou-se, evitando qualquer ruído que chamasse a atenção daqueles seres bizarros. Reordenou seus pensamentos, tentando lembrar-se de fatos posteriores à sua queda que o havia deixado inconsciente, mas não se lembrava de absolutamente nada que pudesse ter ocorrido no tempo em que ficou desmaiado. Não conseguia encontrar explicação plausível para tudo aquilo. Afinal, como seria possível alguém permanecer desacordado por alguns minutos e de repente acordar em um mundo apocalíptico? Era a dúvida mais insistente naquele momento na mente do Escritor Astronauta. Um errante solitário passou gemendo debilmente ao lado da banca abandonada, despertando o Escritor de seu transe de dúvidas. Em estado de alerta, permaneceu imóvel, enquanto observava uma nova informação surgir no minimapa translúcido em sua viseira. "Marco Zero da Transmissão Narrativa Confirmado". Sentiu um alívio em saber que aquela transmissão realmente existia. Cuidadosamente arrastou-se para fora da banca, e certificou-se de que não havia errantes por perto antes de sair pela rua. Seguiu caminhando silencioso por uma grande avenida, sempre estranhando o fato de não reconhecer mais a sua cidade. Dobrou uma esquina rápido e deparou-se com uma horda de errantes, um encontro repentino, inesperado com um grupo imenso, um amontoado de seres imundos e esfarrapados tropeçando uns nos outros. Completamente aterrorizado e quase esbarrando nos errantes que seguiam logo à frente do bando, o Escritor não teve tempo de se esconder, cambaleando para trás com o susto. Por um segundo, aquela visão macabra de todos aqueles monstros o deixou sem ar, sem ação e sem voz para gritar de pavor pela cena que presenciava. Arrastou-se pelo asfalto, levantando em seguida, correndo desesperado pela avenida escura. Alguns metros adiante, escutou um rugido conhecido, um som de motor, e de um dos cruzamentos da avenida uma picape surgiu ameaçadora manobrando uma curva perigosa, fazendo cantar os pneus pelo asfalto. O Escritor parou atônito, olhando os fárois vindo rapidamente em sua direção. Não pensou duas vezes ao se jogar entre dois carros perto da calçada, deixando aquela picape passar veloz por ele. Levantou-se e ficou assistindo, espantado, a camionete cabine dupla seguir em direção da horda de errantes que até alguns instantes atrás o perseguia. O veículo seguiu em frente com seus faróis altos iluminando a cena sanguinolenta que se desenrolava enquanto ia abrindo caminho numa direção desafiadora, atropelando todas as aberrações que estivessem diante dele. Os gemidos dos errantes aumentaram e se uniram ao som das batidas abafadas das dezenas de corpos contra a carroceria da camionete. Pasmo, o Escritor apenas assistia aquela cena violenta quando algo chamou sua atenção no minimapa. Uma informação surgiu, e uma nova legenda logo abaixo das coordenadas precisas dizia: "Potencial aparecimento de um HOb. Tempo de Surgimento Retroativo: 20 minutos". "Um HOb? Espere um instante! Eu acho que sei o que isso significa. Um HOb, um HOb. Droga, eu já ouvi essa palavra antes, mas não consigo me lembrar". Aquele aviso deixou o Escritor um pouco confuso, pois ele tinha a impressão de já ter escutado alguém falar sobre aquilo para ele antes, mas sentiu uma dificuldade estranha em se recordar, aquela mesma sensação que invadia suas manhãs quando ele tentava em vão relembrar o que havia sonhado na noite anterior. A picape já estava longe quando deu uma freada brusca seguida de uma guinada, derrapando nos quatro pneus numa curva audaciosa, desaparecendo pelas ruas escuras da cidade. Ainda sem certeza do que realmente estava acontecendo, o Escritor seguiu sua jornada instantânea de descobrir a origem daquela estranha transmissão narrativa e encontrar a pessoa que a estava transmitindo. Antes que chegasse ao destino final daquela sua busca, encontrou novamente a picape, desta vez numa situação completamente adversa. Com os faróis ainda acesos, o veículo estava capotado em outra rua, os errantes sinistros avançando contra quatro jovens que corriam desesperados procurando abrigo em um prédio próximo. Um dos jovens usava uma espingarda para retardar os monstros, dando cobertura para os outros três. Uma garota levava uma besta em uma das mãos, e um outro rapaz empunhava um arco. Seus vultos adentraram pela recepção de um hotel, sumindo na escuridão aos gritos. Mais aberrações surgiram do outro lado da rua, fazendo com que o Escritor Astronauta decidisse sair dali o mais rápido possível. Foi a única vez em que viu aquele grupo de jovens.
Nos minutos seguintes, uma nova informação surgiu na imagem translúcida do minimapa, uma legenda substituiu a anterior, deixando o Escritor ansioso. "Aparecimento do HOb Confirmado. Interceptação do Marco Zero da Transmissão Narrativa em 2 minutos". Apressou o passo, atravessou mais dois quarteirões, caminhou ziguezagueando uma avenida congestionada de carros abandonados, até o ponto luminoso no minimapa finalmente parar de piscar. "Interceptação do Marco Zero da Transmissão Narrativa concluída. H.O.V.M. encontrado". Finalmente havia chegado na origem daquele sinal. Parou diante de uma praça arborizada quando enxergou, não muito longe de onde estava, algo emanando uma luminosidade azulada incandescente levemente bruxuleante, ao mesmo tempo em que começou a ouvir novamente aquela voz jovem ecoando em seus ouvidos, naquela narrativa ininterrupta, dessa vez falando sobre um grupo de quatro jovens que, após um acidente de carro, estavam presos em um prédio cercado de errantes. Foi aproximando-se lentamente daquela luminosidade até que começou a distinguir a silhueta de um garoto sentado em um gramado lendo um livro. Ele era o Marco Zero da Transmissão Narrativa. O Escritor parou por um momento e sorriu com aquela descoberta. Finalmente havia se lembrado o que significava a palavra HOb. "Sim, agora me lembro. HOb é uma expressão simplificada para definir as pessoas cuja leitura tem o dom especial de tornar real para ela e para as pessoas atentas à sua narrativa todo o universo existente nas páginas de qualquer livro", pensou o Escritor consigo mesmo. "E provavelmente com o impacto da queda, quando fui arremessado pela janela do meu apartamento, a viseira do meu capacete acidentalmente deve ter captado, mesmo à distância, a narrativa do HOb". Isso explicava como o Escritor acabou transportado para aquele mundo apocalíptico impregnado de monstros errantes. Seu amigo Sérgio havia lhe contado em uma outra oportunidade a respeito de uma experiência surpreendente que teve quando encontrou um HOb lendo um livro de poesias, transportando o Poeta Espacial literalmente para o universo vivo da leitura narrativa poética. O Escritor nunca tivera contato com um HOb antes, e agora estava diante de um jovem garoto leitor com essa habilidade fantástica, um Habitante Observador de Vários Mundos. Aproximou-se lentamente do garoto absorto na leitura e tocou em seu ombro. O jovem imediatamente parou a leitura, o encarou meio espantado, e todo aquele mundo obscuro e caótico de errantes onde se encontravam se desfez como cinzas caindo rapidamente ao chão, dando lugar à realidade que o Escritor provavelmente conhecia. O dia estava ensolarado, e a cidade fervilhava de pessoas em seu cotidiano frenético.

Escrito por Ulisses Góes

domingo, 9 de dezembro de 2012

De olhos fechados, o Escritor Astronauta degustou o último gole do chá de hortelã feito por Carol. Ainda podia sentir o gosto morno descendo pela sua garganta, enquanto sua mente permanecia invadida por centenas de borboletas azuis voando mansas em um céu branco e silencioso. Já não escutava a voz de sua amiga, que ficou cada vez mais distante, como se ela estivesse se distanciando aos poucos, lentamente, até se tornar apenas uma lembrança ecoando em sua memória. Abriu os olhos e percebeu que não estava mais na casa de sua amiga Feiticeira Lunar. Estava em seu apartamento, sentado diante de seu computador, o cursor piscando em uma página em branco, esperando pela suas próximas palavras que dariam continuidade à história que estava desenvolvendo. Voltou um pouco a história e leu as partes mais recentes que havia escrito, e depois da leitura mental, olhou para as imagens translúcidas ao seu redor, que mostravam imagens dos personagens no momento em que a narrativa havia parado, além de trechos rascunhados de sua história, e com alguns toques de seus dedos fez todas elas próximas desaparecerem. Limpou sua mente de todas as ideias que tivera até o momento, e continuou a projetar um céu branco, dessa vez sem borboletas azuis voando suaves. Por medida de segurança, colocou seu capacete, travando-o firmemente em seu traje. Concentrou-se por alguns segundos, visualizando o momento derradeiro onde havia deixado seus personagens, e então começou a escrever sem parar, em uma velocidade intensa e atordoante.
"Hemilly, Henrique e Roney enxergaram na rua um vulto se aproximando calmamente em direção à frente da casa. Silenciosos e assustados, observavam enquanto aquela pessoa estranha e sinistra passava pelo portão, caminhava pelo jardim, parando próxima à entrada por alguns segundos, como se estivesse procurando se certificar de que estava exatamente onde deveria estar. A escuridão que tomava conta de tudo ao redor do quarteirão impedia que os três jovens escondidos conseguissem ter uma visão nítida do estranho, mas conseguiram distinguir, na sua silhueta camuflada na penumbra escura, que ele trazia os cabelos presos em um rabo de cavalo e segurava uma espécie de espada em uma das mãos. 'Roney, você consegue descobrir algo sobre ele?', sussurrou Henrique para o irmão, que olhava fixamente para o estranho lá fora. Hemilly virou o rosto para os dois irmãos, sem entender direito aquela pergunta. Roney permaneceu imóvel, quase prendendo a respiração, o olhar fixo lá fora, concentrado demais para responder a pergunta de Hemrique naquele momento. 'O que está acontencendo, Roney?', questionou Henrique num tom nervoso. 'Como assim descobrir algo? Não estou entendendo', indagou Hemilly, olhando insistentemente para Henrique. Nesse momento, Roney caiu ofegante de joelhos no chão da sala, as mãos sustentando o corpo que parecia enfraquecido por uma tarefa extenuante. Henrique agachou-se, segurando seus ombros e percebendo a testa do irmão umedecida por um suor discreto. 'O que houve? Tá tudo bem com você?', perguntou, procurando os olhos do irmão mais novo. 'Sim, eu estou bem. Acho que me esforcei demais agora, mas estou bem', respondeu Roney, fazendo uma breve pausa enquanto levantava-se com a ajuda de Henrique, para em seguida explicar que não conseguiu descobrir nada. 'É como se não existisse nada... eu só enxergava uma escuridão sufocante...'. 'Vocês estão me assustando! Do que seu irmão está falando? Que história é essa de não conseguir descobrir nada e de ver uma escuridão sufocante?'. Os irmãos se entreolharam em silêncio, e depois de um sinal de confirmação de Roney, Henrique virou-se para Hemilly e disse com um tom discreto de confissão, 'Meu irmão tem a capacidade de ler os pensamentos das pessoas'. A jovem garota fez uma expressão de espanto diante dos dois, quase rindo, quando eles escutaram uma voz soturna e desconhecida ecoar ali na sala, 'Então é aqui que vocês estão. Não foi difícil encontrar vocês dessa vez'. Repentinamente as luzes da casa voltaram a funcionar, e todos os ambientes se iluminaram a tempo deles presenciarem um estranho fenômeno acontecer. Uma das paredes da sala começou a se dissolver continuamente em uma névoa sombria, como se o concreto naquele ponto se tornasse instável, inconstante. Então surgiu inicialmente um rosto caucasiano com uma barba por fazer, usando um óculos escuros delineando uma expressão nada amigável".
O Escritor Astronauta parou atônito, olhando pasmo para o texto digitado de sua história. Flávio não perdeu tempo. Esperou pela continuidade da narrativa para então agir como bem queria dentro do enredo. O escritor precisava agir o mais rápido possível, ou aquele personagem rebelde e descontrolado destruiria a todos naquele momento, sem tempo para uma próxima página ser escrita.
"O rosto flutuou sutilmente enquanto uma névoa negra logo abaixo dele rodopiou rapidamente em espirais desgovernadas, fazendo surgir uma silhueta que se materializou em um corpo. 'Tudo ficou mais fácil depois que descobri toda a verdade sobre nossas existências. Só precisei aguardar paciente por aquele filho da puta continuar com toda essa história imbecil'. Flávio agia exatamente da mesma maneira que havia feito quando encontrou pela primeira vez o seu criador. Arrogante, perigoso, cego para reaver o poder que emanava do Livro da Morte que estava nas mãos de Henrique naquele momento. 'Hemilly, Henrique, Roney. Eu conheço vocês, e sei que um de vocês tem algo que me pertence', disse Flávio, aproximando-se lentamente dos três jovens, ainda aturdidos com aquela aparição sinistra e inesperada. 'Quem é você? De onde você surgiu? E como sabe quem somos?', perguntou Hemilly assustada. 'Eu sei quem ele é', disse Roney com um olhar fixo em Flávio, penetrando em sua mente sem medo e obtendo as informações sobre o estranho de palavras ameaçadoras, 'Ele se chama Flávio e é a pessoa que perdeu esse livro maldito. Ele está atrás da gente há alguns dias e quer o livro dele de qualquer maneira'. 'Exatamente, seu pirralho idiota. Nem essa sua aberração me assusta, pois eu sei a razão para isso. Eu sei porque você tem esse dom de ler as mentes dos outros. Você quer saber por que você é assim?'. Flávio se aproximou devagar, com passos mansos e atitudes suspeitas. Roney continuou olhando fixo para o rosto de Flávio, lendo seus pensamentos, e quando obteve mais informações, o garoto arregalou os olhos e disse assustado, 'Ele pretende matar a gente assim que pegar o livro!'. 'Você não precisava ler a minha mente para saber que eu faria isso. Além do mais, não se preocupem com suas vidas ridículas. Na verdade, eu, vocês e todo esse mundo só existe dentro da mente de um maldito filho da puta que pensa que agora tem o controle de nossos destinos', dizia Flávio, parando no meio da sala, enquanto olhava atentamente para a névoa negra que rodopiava ágil ao seu redor. Com seu olhar de uma loucura psicótica, direcionou a névoa para uma de suas mãos, e viu materializar-se rapidamente uma pistola Colt 45 prateada, com a qual apontou para Henrique sem perder tempo. 'E agora, você vai devolver a porra do meu livro, ou terei que sujar ele com o sangue de vocês três?'. Henrique encarou Hemilly e mexeu os lábios lentamente, dizendo silencioso a palavra 'pingente'. Ela entendeu a mensagem, levando a mão contra o peito, procurando o Destemporizador escondido por baixo de sua blusa. Ela o puxou pela corrente até que sua mão agarrou o pingente em forma de pequena ampulheta. Flávio desviou sutilmente o olhar de Henrique e apontou a arma para Hemilly. 'Desculpe, mas o tempo está contra você agora, e eu estou sem paciência'. Flávio disparou um tiro da sua Colt no mesmo instante em que Hemilly sacudiu o pingente, criando uma onda temporal ao redor deles e que se propagou por todo o ambiente, distorcendo a velocidade do tempo naquele espaço. Assim que a bala encontrou as ondas criadas pelo pingente, sua velocidade diminuiu astronômicamente, fazendo com que o projétil atravessasse o ar em slow motion, tão lentamente que podia se enxergar a trajetória do rastro deixado pela bala. 'Tire a gente daqui agora!', gritou Roney para Hemilly. Ela entendeu o recado e aproximou dos dois irmãos, envolvendo a todos na corrente do pingente. A onda continuava a se propagar pelo ar, e havia atingido Flávio, deixando seus movimentos pesados e cadenciados pelo retardo do tempo. Assim que Hemilly girou a ampulheta duas vezes seguidas, uma aura brilhante dourada circundou ela e os irmãos, eles ouviram um estrondo sonoro implosivo, e em seguida um pequeno buraco negro começou a se formar na mesma parede de onde havia surgido, momentos antes, a figura ameaçadora de Flávio, que agora movimentava-se com dificuldade. Confusa com aquela situação anormal, Hemilly não sabia o que realmente estava acontecendo, e nem por que surgiu aquele pequeno buraco negro na sala de sua casa. 'Não era pra isso acontecer!', gritou ela para os dois irmãos, 'Eu não entendo! Não estamos voltando no tempo!'. Enquanto eles permaneciam inertes dentro da aura brilhante, tudo ao redor começou a ser sugado pelo buraco negro, a começar pela própria onda de retardo temporal que ainda se propagava. Não demorou dois segundos para que todos os móveis fossem arrastados para dentro do buraco na parede. Flávio olhou desesperado para o que estava acontecendo, seu coração disparado enquanto ele gritava para todos os lados, 'O que você está tentando fazer, seu filho da puta idiota? Você pensa que vai me destruir assim tão facilmente? Eu sei de tudo o que vai acontecer na história tanto quanto você. Eu guardei todos os spoilers soltos sobre essa sua história imbecil!'"
O Escritor Astronauta parou de digitar, os dedos pousando a poucos milímetros do teclado, seu coração também acelerado pelo momento crucial que o envolvia agora naquela história com seus personagens e pelo perigo que aquela atitude ousada representava. Respirou fundo, e depois de ler as vociferações de Flávio nas últimas linhas, soltou um sorriso malicioso, mostrando contentamente pelo plano que havia criado estar funcionando perfeitamente. "Eu enganei você. Apaguei todas as minhas anotações sobre a história, e os spoilers que você capturou não eram meus realmente. Eram ideias de Carol que eu não usaria. O spoiler que você tem sobre esse momento da história é falso".
"Flávio, ainda conectado à mente do Escritor, escutou aquela revelação com uma expressão de pavor, que se transformou em desespero ao perceber que havia caído em uma armadilha do seu criador. 'Você não pode se livrar de mim, seu filho da puta! Você mesmo sabe que eu sou importante para o desenvolvimento dessa história maldita!', gritava, tentando agarrar-se em qualquer coisa para não ser sugado por aquele buraco negro. A voz onisciente do seu criador ecoou mansa em sua mente aturdida, largando novas revelações sobre o que estava acontecendo naquele ponto da narrativa, 'Mas eu não vou me livrar de você, Flávio. Você apenas será substituído por uma outra versão sua, vinda de um universo paralelo, uma versão que desconhece a minha existência. O que está atrás de você não é um buraco negro realmente. É um portal para um outro universo paralelo ao seu'. A névoa negra que envolvia o personagem rebelde da história sumiu rapidamente dentro do negrume espiral. Um a um, os móveis foram arrastados, e por fim, Flávio gritou diversos palavrões abafados pelo som assustador daquele portal aberto na parede, até ser também sugado pelo buraco negro e desaparecer completamente sem deixar rastros de sua existência. Então o portal drenou a si mesmo, sendo engolido pela sua própria força destruidora, sumindo logo em seguida, deixando apenas uma força pulsante e luminosa em seu lugar. Hemilly, Henrique e Roney permaneciam protegidos dentro da aura dourada criada pelo pingente, até que em questão de microssegundos, eles também desapareceram no ar, deixando apenas um rastro dourado flutuando no exato lugar onde eles estavam juntos momentos antes. Naquele momento, o estranho visitante soturno, que havia permanecido o tempo todo parado, exatamente imóvel do lado de fora da casa, se permitiu entrar no local. Atravessou a porta como se ela simplesmente não existisse e parou diante da sala agora vazia. Uma penumbra sinistra o envolvia, tornando impossível para qualquer pessoa dicernir sua fisionomia com exatidão naquele momento. Dissolvida sua imagem numa escuridão protetora, vagamente era perceptível seus olhos de pupilas vermelhas brilhantes e sua silhueta envolta numa indumentária preta com sua mão segurando uma katana. Ele observou a força luminosa pulsante deixada pelo portal criado e o rastro dourado flutuante da viagem temporal realizada por Hemilly, Henrique e Roney. Sua presença naquele local deixou aqueles dois rastros de força espaço-temporal instáveis, fazendo eles se aproximarem um do outro de maneira perigosa. O estranho visitante continuou observando a aproximação das forças com um olhar impassível, avaliando silenciosamente tudo o que ocorreu ali, até dar um passo para trás e desaparecer no ar através de sua névoa negra, girando silenciosa e rápida, um segundo antes da colisão dos rastros de forças gerar uma explosão de energia transdimensional".
O inesperado então ocorreu com o Escritor, que não imaginava que aquela explosão em sua história ultrapassaria as fronteiras literárias e o atingiria em cheio, arremessando-o pela janela de seu apartamento, fazendo-o cair do outro lado da rua, diante do olhar curioso de um pombo.

Escrito por Ulisses Góes
Pintura Fotorrealista: Jeremy Geddes

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Após aquele bloqueio criativo desenvolvido numa lógica temporal difícil de se compreendida, onde os dias podiam ser condensados em frações de microssegundos, um silêncio profundo se firmou por todo o ambiente do apartamento do Escritor Astronauta. Ele sentia um gosto amargo de tempo perdido quando se recordava da experiência vivida há poucos momentos atrás, como se tivesse vivido uma vida durante um simples piscar de olhos. Levantou-se vagarosamente, e por segurança, colocou seu capacete. Depois das duas tentativas perigosas de Flávio, queria realmente se certificar de que não seria pego novamente desprotegido vagando em suas ideias e pensamentos. Precisava voltar a escrever o quanto antes, já que sabia exatamente a razão de todos aqueles ataques de seu personagem rebelde, que estava disposto a tomar qualquer atitude para impedir que pudesse prosseguir com a história da maneira como queria. O questionamento maior do Escritor era como fazer para seu personagem esquecer tudo o que ele descobriu e voltar a seguir o curso de própria vida dentro da história. "Como eu faço para Flávio esquecer que ele é fruto de minha mente de escritor?", perguntava-se intrigado e ciente de que, enquanto Flávio soubesse que era personagem de seu livro, ele continuaria sua perseguição implacável e encontraria outras formas ardilosas de atrapalhar o desenvolvimento da trama. Pensou em reescrever a parte em que ele descobre sua existência enquanto escritor e seu criador, mas acabou concluindo que de nada adiantaria pois se Flávio foi capaz de se conectar com seus pensamentos uma vez, muito provavelmente ele acabaria fazendo isso outras vezes no desenvolvimento da narrativa, tornando-se uma constante dor de cabeça para terminar o livro. Na verdade, a conexão criada entre ele e Flávio era o elo que sempre denunciaria todas as suas ideias em relação ao livro e à história. Pegou a estranha caneta utilizada para esconder trechos de seus textos e guardou novamente no pequeno estojo excêntrico, segurando-o enquanto olhava para as imagens translúcidas flutuando sempre pelo seu apartamento, observando os trechos já escritos, além de alguns rascunhos de ideias para serem utilizadas posteriormente. Entre as ideias escritas, leu um nome: "Thales". Sentiu uma pequena dor pontiaguda em sua nuca e subitamente sua mente foi invadida por flashes rápidos de imagens viajando na velocidade de descargas elétricas de seus pensamentos soltos. Não conseguia visualizar com total precisão dada a dificuldade em prendê-las como lembranças por mais de meio segundo. Viu uma mão branca segurando algo que parecia ser uma espada, ou uma katana. Viu uma fumaça negra dançando rápida e sutil ao redor de um vulto com feições pálidas e olhos vermelhos como sangue com um olhar tão penetrante que o assustou. Balançou a cabeça, e as imagens em flashes dissiparam-se completamente, ao mesmo tempo em que pequenas borboletas azuis silenciosamente invadiram o interior de seu capacete, bloqueando totalmente sua visão. Sem fazer a menor ideia de como elas conseguiram entrar em seu traje, o Escritor assustado cambaleou, tropeçando em seus próprios passos e caindo para trás. Deitado no chão, sentiu um aroma fresco de flores do campo que exalava das borboletas invasoras de capacetes, e imediatamente deduziu que tudo aquilo poderia ser obra de sua amiga Caroline, a Feiticeira Lunar. Demorou alguns segundos para que as azuladas voadoras silenciosamente desaparecessem como surgiram, de uma maneira misteriosa, inexplicável. Uma claridade mansa cegou a visão do Escritor que, ainda deitado, enxergou no teto uma abóbada de onde pendiam trepadeiras ornadas de flores maravilhosas. "Mas onde eu vim parar?", indagou confuso, ao levantar-se e perceber que não estava mais em seu apartamento. Olhou ao redor com um expressão de completa estranheza. Tirou o capacete e sentiu fragrâncias de flores do campo por todo o ambiente, perfumes variados flutuando pelo ar carregados por luminosidades coloridas refratárias provenientes de todos os cantos daquele salão amplo. Havia plantas por toda parte, a maioria crescendo dentro de carcaças de monitores antigos de computadores. Nas paredes, algumas pinturas exóticas com imagens de deuses orientais, celtas e egípcios e naturezas exuberantes, espadas antigas e floretes compartilhavam espaço com panelas de cobre e variadas colheres de pau penduradas em ordem aleatória de tamanhos e cores. O Escritor caminhou em direção a uma prateleira com diversos frascos coloridos com óleos e essências de variadas plantas com nomes desconhecidos para ele. Ali próximo, uma estante de livros chamou a atenção do Escritor Astronauta pelos seus títulos misteriosos como "O Uso Secreto das Ervas", "Conhecimento sobre Solos", "Livro das Sombras", "Símbolos do Antigo Egito", "A História das Tradições Milenares". A maioria mostravam suas capas duras envelhecidas pelo tempo e páginas amareladas e rasgadas nas bordas. Ali perto, em um sofá aconchegante cheio de almofadas de crochê, uma gata dormia preguiçosa, indiferente à sua presença inesperada. Passou por um pequeno e bem cuidado jardim circular que ficava exatamente logo abaixo da abóbada no teto. Entre as plantas, uma estátua de uma figura feminina quase completamente coberta de folhas, musgo verde e flores. Aos seus pés, escondida pelas ramagens, havia uma pedra onde podia se ler esculpida o nome "Gaia". O Escritor, cativado pelo sossego daquele ambiente impregnado de aromas floridos, começou a deduzir que aquele lugar era o lar de sua amiga Caroline. Silencioso e sem alarde, flutuou em direção a um espaço que parecia ser uma cozinha, mas que se assemelhava a uma pequena estufa, onde a natureza crescia por todos os cantos despreocupada. Um bule branco com água parecia esquecido na labareda azul de um fogão muito antigo. No centro, uma imensa mesa de madeira com pés de ferro, coberta por uma toalha estampada com flores e borboletas, era ocupada por uma bagunça mirabolante de pequenas sacolas de veludo, pedras preciosas, diversas velas aromáticas acesas, papéis com desenhos de runas e talismãs, mais alguns livros antigos abertos, um prato com alguns cupcakes e um notebook ligado, com uma página de uma rede social aberta. Quando aproximou-se a tempo de conseguir ver o perfil online da Feiticeira Lunar, sentiu a fragrância de flores do campos se acentuar pelo ar e a voz conhecida e amistosa de sua amiga Caroline atrás de si o fez estremecer num susto discreto.
"Oi, amigo! Que bom que eu consegui trazer você até minha humilde moradia", disse a Feiticeira Lunar animada, abraçando-o em seguida. "Oi, Carol. Imagino que você possa me explicar como eu vim parar aqui em sua casa", questionou o Escritor, curioso. "Sim, eu posso. Foi por causa de minha caneteira". "Caneteira? Como assim caneteira?", perguntou o amigo, confuso. "Essa que está em sua mão. Ela é minha caneteira, e é utilizada para guardar segredos e esconder textos que tenham uma natureza confidencial, secreta. Dependendo dos motivos, a pessoa que esconde os textos os torna ocultos até para quem os escreveu, fazendo a pessoa esquecê-los completamente. Eu estava mexendo em algumas caixas hoje e senti falta dela. No mesmo instante em que dei por falta dela, a caneteira se teletransportou de volta para cá e trouxe você junto.", explicou Carol, enquanto pegava o pequeno estojo da mão do Escritor, que tentou explicar o motivo daquela caneta estar em seu poder. "Essa caneteira foi usada pelo personagem de meu livro para esconder um trecho importante da história". A Feiticeira Lunar olhou um tanto supresa para o amigo, que passou alguns minutos explicando para ela tudo o que havia acontecido entre ele e o personagem Flávio, desde o primeiro encontro ameaçador entre eles em seu apartamento, passando pela luta massacrante no deserto, até a descoberta de seu texto escondido naquela caneta estranha. "Seu personagem descobriu sua origem e criou uma conexão com você? Então a situação é preocupante. Se ele descobriu o elo que os une, ele pode fazer qualquer coisa para impedir você de seguir adiante com seu livro, como, por exemplo, invadir minha casa e surrupiar minha caneteira, ou até de induzir você a escrever a história da maneira dele. Isso significa que ele se tornou uma entidade viva que pode acabar com todos os outros personagens, enfim, tornar seu livro uma catástrofe completa", disse Caroline, extremamente preocupada. "Eu não posso continuar escrevendo até encontrar uma maneira de anular totalmente esse elo que existe entre a gente". "Por que você simplesmente não elimina o personagem de sua história?", perguntou a Feiticeira Lunar, enquanto pegava o bule e derramava a água fervida em duas xícaras cheia de pequenas folhas de hortelã. "Eu não posso. Ele é importante para o desenvolvimento da história. Sem Flávio, tudo que criei fica sem sentido", respondeu o Escritor, soltando o suspiro de desânimo. Enquanto tomava o chá oferecido pela amiga Feiticeira Lunar, olhou para o teto da cozinha-estufa e descobriu uma coruja de um branco acinzentado com dispersos penachos pretos dormindo escondida em um canto, entre vasos suspensos de plantas exóticas. "Eu não sei como isso foi acontecer. Como Flávio conseguiu abrir essa conexão entre dois mundos? O universo dele sequer existe, é uma criação de minha mente!", questionou o Escritor, bebericando o chá. "Provavelmente você esteja enganado quanto ao mundo dele não existir.", ponderou Caroline. "Como assim enganado?", indagou o escriba, confuso. "Eu sempre imaginei os escritores como pontes de ligação entre universos distintos, que existem em dimensões separadas, ou paralelas. Vocês tem o dom de visualizar estes mundos como fruto de suas imaginações frenéticas, e acabam criando histórias baseadas neles. Essa conexão possivelmente poderia ter ocorrido com qualquer outro personagem de sua história. Acabou acontecendo com Flávio", explicou a Feiticeira. "Se o que você diz realmente for verdade, isso significa que Henrique, Roney e Hemilly estão em perigo real por causa de Flávio, e eu inevitavelmente vou escrever a história da maneira como ele fará, e não como eu penso que seja.", afirmou o Escritor, que ficou aflito ao ver Caroline concordando com tudo o que ele havia dito. "Agora, pensando sobre essa incrível conexão entre os mundos, eu começo a imaginar que a resposta para o problema que você tem seja exatamente esse.", disse Caroline, mordendo um dos cupcakes de banana que estava no prato ao lado de seu notebook. O Escritor olhou para ela silencioso com uma estampada expressão interrogativa em seu rosto. "A sua única alternativa é abrir um buraco para um universo paralelo", a Feiticeira sorriu com a frase dita e prosseguiu com sua explicação, "Pense bem, o que aconteceu entre você e Flávio foi uma conexão entre mundos. Claro, mundos diferentes, pessoas diferentes. Então, se isso foi possível acontecer, você pode fazer acontecer dentro da sua própria história. Você só precisa criar uma possibilidade de ser aberto um portal dimensional para um outro universo paralelo ao universo dos personagens de seu livro." Os olhos do Escritor imediatamente se iluminaram, pois não demorou muito e ele já desenvolvia, a partir da ideia inicial de Caroline, todo o desenrolar dos fatos subsequentes. Entretanto, Caroline impediu que a imaginação do Escritor se desenvolvesse e estalou os dedos bem diante de seus olhos, tirando toda a sua concentração das ideias que se formavam previamente em sua cabeça. "Não! Não faça isso agora. Não imagine nada. Esqueceu que Flávio fica sabendo de tudo o que vai acontecer na história no exato momento em que você imagina tudo em sua mente? Relaxe, respire fundo. Dessa vez você vai criar o elemento surpresa para seus personagens, aquilo que o leitor percebe na história como sendo o momento de suspense. Essa parte da narrativa vai ser um desafio para você." O escriba olhou sorrindo para sua amiga, agradecendo pela fabulosa ideia. Continuaram a tomar o chá, enquanto o Escritor Astronauta deixava sua mente ser invadida por centenas de borboletas azuis voando num céu branco.

Escrito por Ulisses Góes



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um flash momentâneo cegou a visão do Escritor Astronauta, balançando a cabeça por causa da leve tontura que sentira. Devia ser a quinta vez que sua mente rodopiava em decorrência da sensação estranha de torpor provocado por aqueles flashes ocasionais. Apoiou-se no cabo da vassoura por alguns segundos, respirou fundo e procurou seguir com sua tarefa. Olhou ao redor, mirando toda a amplidão daquele hangar vazio e tentando imaginar há quanto tempo estaria ali varrendo o chão daquele lugar. Estava muito incomodado por não conseguir se lembrar como chegou ali e nem porque estava varrendo a poeira daquele imenso espaço aparentemente abandonado. Tinha uma lembrança meio distante a respeito de uma história que estava escrevendo atualmente sobre três jovens que encontram um objeto maligno e que estão correndo perigo por conta desta descoberta. Parou de varrer e novamente olhou calmamente o hangar ao seu redor. "Não é possível. Será que estou tendo uma crise criativa e estou sem ideias para continuar desenvolvendo a história?", indagou o Escritor para si mesmo. Era difícil obter respostas quando a mente parecia mergulhada numa piscina de amnésia flutuante, boiando em meio a memórias esquecidas e lembranças afundadas. "Eu tenho essa lembrança meio distante de estar escrevendo essa história, e de estar em uma parte da narrativa onde os personagens parecem estar em perigo... Acho até que me lembro quem estava perseguindo eles... Ou não", o Escritor esboçava uma expressão confusa no rosto, enquanto procurava organizar suas ideias a respeito do vácuo que se instalou em sua memória naquele momento. A impressão que ele tinha era como se todas as ideias tivessem desaparecido sem deixar pistas esclarecedoras. Fechava os olhos, e tudo o que conseguia visualizar era uma imensidão branca ao seu redor. Estava quase certo de que não escrevia nada há dias, ou semanas. Aquele pensamento súbito lhe causou calafrios de ansiedade, pois tratava-se de uma situação que poderia causar um atraso irreversível na conclusão de seu livro. O Escritor sabia que seu receio pelo pior tinha fundamento, pois já havia passado por períodos de crise criativa anteriormente, quase deixando de finalizar histórias por falta de ideias para concluir suas obras. "Isso não pode estar acontecendo de novo. Eu lembro que tinha ideias elaboradas, inclusive algumas delas rabiscadas em papéis, rascunhos breves de como seria desenvolvida toda a construção da narrativa. Creio ter deixado esse material sobre a mesa". Então uma nova crise de ansiedade percorreu seu corpo disfarçado como mais um calafrio inevitável ao se recordar do que aconteceu quando Salomé, a diarista que duas vezes por semana fazia uma faxina completa em seu apartamento, acabou limpando sua mesa e, por engano, jogou todos os seus rascunhos no lixo. Em parte, a culpa pelo ocorrido partiu de seu descuido em não explicar para Salomé que aqueles papéis em sua mesa constituiam material importante para seu trabalho como escritor, e que nada ali poderia ser jogado fora. Após o infeliz acidente, o Escritor procurou ser mais detalhista sobre as atividades da empregada baixinha e faladeira na limpeza do apartamento, orientando a diarista a respeito de suas tarefas domésticas. Ainda assim, foi uma experiência traumatizante para ele, pois alguns trechos vitais do livro que estava escrevendo na época acabaram no lixo junto com embalagens amassadas de café, potinhos de requeijão cremoso e restos de refeições, e reescrever tudo de novo exatamente como havia sido escrito da primeira vez foi praticamente impossível. De maneira alguma queria passar por aquilo novamente. Continuou varrendo, enquanto forçava sua mente a se lembrar de algo, e após alguns longos minutos que pareceram mais horas intermináveis, avistou uma placa informativa pregada em uma parede ao longe. Sem enxergar direito o que estava escrito nela, percorreu a enorme distância movido por uma curiosidade incômoda. Aproximou-se da placa prateada fixada na parede do Hangar e leu a informação em letras douradas: "BLOQUEIO CRIATIVO". Seu coração disparou movido por uma angústia silenciosa. Ao se deparar com aquele aviso inquietante, conseguiu resgatar uma recordação sobre aquele enorme espaço, e finalmente encontrou a explicação de que precisava para entender parte daquela situação. Aquele hangar vazio era a maneira que seu cérebro anunciava quando as ideias estranhamente desapareciam e seu processo de criação estagnava. Já esteve ali em outras ocasiões difíceis. Parou de varrer e olhou para o teto. Notou que havia algo de errado na sua presença naquela vasta estrutura feita de metal, silêncio e falta de ideias.
Olhou a viseira de seu capacete, procurando ativar alguma informação, mas não conseguiu obter qualquer sinal ou conexão. "Tenho a impressão de que aqui você não vai obter nenhuma informação que deseja dessa maneira", disse uma voz educada atrás do Escritor, que virou-se com ar de surpresa por se deparar com a presença inesperada. Deu uma boa olhada na figura pequena e despojada daquele senhor idoso com uma face de traços orientais marcada por um bigode e um cavanhaque brancos, e com uma careca rodeada com o restava de seus cabelos grisalhos. Vestia um quimono branco e preto no melhor estilo Pai Mei e seu olhar era tão sereno quanto suas palavras. "Não esperava você novamente aqui tão cedo. Imaginei que você demoraria a escrever uma nova história", disse o pequeno homem sem desviar seu olhar impassível. O Escritor olhou para os lados, intrigado com aquela aparição repentina. A entrada mais próxima que avistou foi uma porta que ficava cerca de 800 metros do outro lado do Hangar. "Eu conheço você?", indagou encarando o idoso baixinho parado à sua frente. "Como é de se esperar, o bloqueio impede você de reconhecer suas incapacidades anteriores e apaga de sua memória as visitas anteriores que você fez aqui", disse o pequeno homem, que não aguardou outros questionamentos do Escritor para continuar com suas explicações, "Sim, você me conhece e já tivemos este encontro outras vezes, sempre neste mesmo ambiente, uma criação de sua mente nos momento em que ela sofre um bloqueio criativo, uma vasta projeção gerada pela paralisia das ideias, ansiedade proporcionada pelo descontrole do texto criado, ou simplesmente por encarar uma página em branco e não saber o que escrever". "Então quer dizer que já nos vimos antes? Meio difícil de acreditar, principalmente porque não me lembro de você", disse o Escritor meio confuso, "Se esse aqui é meu bloqueio criativo, quando eu conseguirei sair daqui?". "Sua saída deste lugar vai depender apenas de sua capacidade de lembrar o motivo que o trouxe aqui", respondeu o pequeno senhor. "Afinal de contas, quem é você? Alguma espécie de projeção que minha mente criou para me fazer companhia enquanto fico varrendo esse lugar gigantesco?", questionou o Escritor um pouco nervoso, enquanto sacudia a vassoura diante do olhar irredutível do senhor de olhos puxados. "Sim, você está certo. Você me criou como o Guardião do Hangar. Estou aqui para confrontar suas dúvidas e lhe dar a oportunidade de encontrar sua saída daqui de forma espontânea. Venha, me acompanhe", a figura baixinha do senhor virou-se e seguiu caminhando em direção ao centro daquele enorme lugar vazio. O Escritor, logo atrás, formulava novas perguntas, "Espere, para onde estamos indo? E que história é essa de espontâneo? E por que eu criei um Guardião nanico e careca que me confunde mais do que me ajuda?", Prestes a formular mais questionamentos, o Escritor foi bruscamente parado por um gesto rápido e ríspido do Guardião, que levantou a mão na altura de sua cabeça. Silenciosamente, ele uniu as palmas das mãos junto ao peito e fechou o olhos. Em seguida, ensaiando movimentos de luta marcial semelhantes ao Kung Fu, golpeou com um dos pés o chão, provocando um estrondo impressionante que fez levantar um perfeito bloco de concreto. A imensa pedra polida pairou por microssegundos no ar antes de cair, tempo suficiente para o buraco surgido no chão desaparecer sem deixar vestígios. Depois que uma leve camada de poeira se dissipou no ar, o Escritor Astronauta percebeu que havia um arquivo incrustado no bloco. Sem muita cerimônia, o Guardião se aproximou, puxou a segunda gaveta, pegou uma pasta com papéis e começou a folhear os documentos em suas mãos. "Aqui estão todos os processos de seus bloqueios criativos já ocorridos. Não são muitos. Aqui estão informações de quando ocorreram, os motivos dos mesmos terem surgido e como você conseguiu quebrá-los. O último aconteceu por culpa de Salomé, a sua diarista", explicou, entregando os documentos para o Escritor. "Sim, eu me recordei disso agora mais cedo. Foi uma situação complicada, pois tive que me controlar para não xingar a coitada. O pior de tudo foi reescrever todos os trechos que eu havia rascunhado. De qualquer forma, eu aprendi com a desastrosa experiência, e passei a ser mais cuidadoso com meus papéis escritos", comentava o Escritor, andando calmamente de um lado para o outro, "Mas agora, pelo que me lembro, o bloqueio tem a ver com a história em si. Eu estava escrevendo, e então, num determinado ponto, a história fugiu ao meu controle. É isso. Sim! Eu me recordo agora, não o suficiente ainda, mas eu começo a me lembrar". A partir de então, tudo se tornou mais complicado para ser resgatado da memória do Escritor angustiado com a dificuldade do momento. Virou-se impaciente para o Guardião, que pegou pasta de suas mãos e a colocou de de volta no arquivo sem demonstrar qualquer sentimento de pena ou solidariedade com o sofrimento de seu criador. Um novo movimento, mais um golpe poderoso de seu pé, e ele fazia o chão se abrir perfeitamente para receber de volta o bloco de concreto com aquele arquivo precioso. "Você conseguiu recordar de maneira espontânea que seu bloqueio atual teve início porque você perdeu, em determinado momento de sua criação literária, o controle de sua história. Esse é o caminho", disse o Guardião, novamente encarando o Escritor com seu olhar impassível e calmo. "Sim, esse é o caminho. Mas tem algo errado que eu ainda não enxerguei", refletiu o criador de narrativas, "De fato, eu perdi o controle de minha história, mas é preciso haver um motivo para a perda do controle. Qual situação motivou, ou quem?...". Um flash de pensamento começou a pulsar tão rápido quanto um piscar de olhos em sua memória. No início, o pensamento formava a imagem de um rosto desfocado, até que gradativamente e cada vez mais veloz, a imagem pulsou em flashes em sua mente, até que fez surgir uma imagem translúcida bem ao seu lado, mostrando um rosto bem definido ladeado por uma sequência de informações esclarecendo quem era aquela pessoa. Mirou atentamente a imagem e soltou um grito, "Flávio! Sim, agora me lembro! É por causa dele que estou experimentando esse novo bloqueio criativo! Ele me lançou para cá!". Em uma fração de segundos, sua mente foi invadida por diversas lembranças numa velocidade alucinante. Sua história, o Livro da Morte, Hemilly, Henrique, Roney, o trecho em que ele narrava como Flávio descobriu que era personagem de um livro, o detector de textos incontroláveis oferecido pelo seu amigo Ramon, a estranha caneta encontrada, o texto resgatado. Entusiasmado, o Escritor podia sentir todas as suas memórias retornando intensamente. "Percebo que você recuperou toda sua memória, inclusive a memória dos fatos ocorridos após o resgate de seu texto feito pela caneta", observou o Guardião do Hangar. "Sim", respondeu o Escritor com um leve sorriso no rosto, "Eu me recordo de estar sentado no sofá em minha sala. Eu estava relendo o meu texto que a caneta havia recuperado, então senti uma dificuldade repentina em respirar semelhante a que senti quando Flávio surgiu da primeira vez na minha frente. Logo em seguida, fiquei tonto, e percebi uma névoa negra rodopiando nervosa ao meu redor. Procurei meu capacete, mas antes que eu pudesse colocá-lo, senti uma pancada forte em minha cabeça. Caí no chão meio desacordado, Flávio veio para cima de mim com uma seringa na mão. Senti uma picada fina em meu pescoço e desmaiei. E então acabei aqui na minha projeção criada pela minha mente, conversando com um Guardião baixinho parecido com Sr. Miyagi." Assim que terminou de libertar suas memórias mais recentes, o Escritor sentiu tremores no chão. Olhou para os lados e viu o imenso Hangar começar a ruir. Toda a estrutura de metal e concreto estava caindo por toda parte provocando um barulho quase ensurdecedor. "O que está acontecendo?", gritou assustado o Escritor. "O seu bloqueio criativo foi rompido. Você conseguiu quebrar as barreiras que o impediam de seguir adiante. Não vai demorar muito para tudo aqui desmoronar completamente", explicou o Guardião, "É aqui que mais uma vez nos separamos. Boa sorte. Que você consiga terminar a sua história", disse, virando e sumindo calmamente no meio dos escombros e entulhos que se formavam em toda a área do Hangar. Sem saber para onde correr, o Escritor tentou se proteger dos pedaços de metal que caíam. Quando uma viga enorme de aço estava prestes a lhe atingir em cheio, uma descarga de adrenalina invadiu seu corpo e um flash tomou conta de sua visão. Acordou sobressaltado, com o coração acelerado, o rosto suado, no chão da sala de seu apartamento. Ainda um pouco ofegante, olhou para a mesinha de centro. A caneta e os papéis com seu texto resgatado ainda estavam ali.

Escrito por Ulisses Góes
Fotografia: Hunter Freeman

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Escritor estava confuso com a descoberta. Não tinha certeza se o que tinha em mãos era exatamente aquilo que deveria ter encontrado. Passou muito tempo caminhando nas areias daquela praia deserta, e após uma busca cansativa que parecia nunca terminar, tudo o que o detector de textos incontroláveis encontrou foi uma pequena caixa retangular de metal enfeitada com minúsculas engrenagens, um relógio que mal cabia na ponta do dedo e uma lâmpada diminuta, sempre acesa. Agora estava sentado no sofá da sala, segurando aquele pequeno objeto, tentando decifrar como aquilo poderia lhe ajudar a encontrar o trecho em que a história que estava escrevendo fugiu ao seu controle. "Isso parece uma sucata enferrujada", disse, contrariado, examinando de perto a pequena caixa de todos os ângulos possíveis. Pensou em retornar pela porta para iniciar uma nova busca, mas a mesma já havia desaparecido logo após ele retornar para a sala de seu apartamento. E assim como as outras, sequer viu o momento em que ela sumiu, uma situação que deixava o Escritor visivelmente irritado. "Malditas portas...", resmungou, enquanto movimentava, meio nervoso, a caixinha em suas mãos. Balançando ela levemente, percebeu que havia algo dentro. Mesmo considerando a possibilidade de sua busca ter sido um fracasso por encontrar algo que em nada se parecia com textos perdidos, o Escritor puxou algumas imagens translúcidas e iniciou uma ampla pesquisa em sites de busca, banco de dados e sistemas de informações com o objetivo de encontrar algo que pudesse revelar que objeto era aquele que estava agora em seu poder. Entretanto, todas as pesquisas foram em vão. Dominado pela curiosidade, abriu a pequena caixa com extremo cuidado e imediatamente a lâmpada diminuta apagou-se. Dentro havia um objeto estranho, uma haste de metal com um quase minúsculo relógio em uma das extremidades, junto com um filamento de cobre espirilizado que se prolongava contornando toda a extensão da haste. O Escritor olhou confuso, sem saber com certeza o que era aquilo. Olhou mais atentamente e chegou a uma conclusão que poderia ser a mais plausível para definir aquele objeto em sua mão. "Eu não estou muito certo do que encontrei, mas acredito que isto seja uma caneta", afirmou, segurando com atenção o bizarro instrumento. Silencioso enquanto pensava, o Escritor procurou entender sua descoberta e imaginou como ela traria de volta os textos descontrolados de sua história. "Se isso for realmente uma caneta, como eu suponho que seja, então provavelmente será através dela que encontrarei meus textos. Não deixa de ser uma possibilidade. Afinal, antes do surgimento de toda essa tecnologia, os escritores criavam suas narrativas e o poetas escreviam seus versos utilizando-se de pena e tinta, ou de uma simples caneta". Eufórico pela hipótese formulada, correu para sua mesa de trabalho, abrindo gavetas em busca de folhas de papel em branco onde pudesse utilizar a suposta caneta. Encontrou um maço de papéis em branco e jogou tudo na mesinha de centro da sala. Concentrou-se, segurando o pequeno instrumento de escrever, como que aguardando que aquele ritual trouxesse de volta as lembranças dos trechos perdidos, fazendo-o transcrever tudo novamente para as folhas. Mas os segundos se passaram, transformando-se em minutos suspensos, e nada aconteceu. Começou a ficar ansioso, quase nervoso. Nada podia ser mais desanimador do que uma tentativa frustrada de uma ideia que parecia fascinante. Largou a caneta e construiu segundos silenciosos, observando aquele objeto inerte em cima do papel enquanto arquitetava dezenas de pensamentos a respeito do que poderia estar errado naquela situação toda. Planejou levantar-se do sofá, reorganizar suas dúvidas para entender a sequência de ações ocorridas nos últimos minutos após a partida de seu amigo Andarilho Estelar, mas um movimento imperceptível chamou sua atenção. Podia ser apenas sua imaginação brincando com seus sentidos, mas não era. A suposta caneta promoveu um movimento sutil, tímido ainda, diante de seus olhos espantados, começando a se mexer sozinha, cada vez mais nervosa, até que se levantou e ficou em pé sobre a folha, flutuando milímetros acima de sua superfície branca, inerte. Não demorou muito, e a caneta, para assombro completo do Escritor Astronauta, começou freneticamente a escrever linhas e mais linhas de um texto que se configurou familiar para ele. Aproximou-se mais do papel e começou a ler atentamente todo o trecho que estava sendo escrito pela ponta ágil da caneta. Logo acima, uma tela translúcida posicionou-se e captou a liberação do texto antes perdido de seu livro, fazendo a transcrição em tempo real do que estava sendo reescrito.
"Enquanto dirigia pela estrada, Flávio relembrava que no início não conseguia controlar seus pensamentos confusos e dispersos. A princípio, aquela voz narrativa constante que ouvia em determinados momentos ecoando em seus ouvidos o deixara transtornado, a ponto de imaginar se tratar de algum tipo de esquizofrenia que poderia estar sofrendo, por conta do livro satânico que guardava há tanto tempo com ele. Não queria acreditar que realmente estivesse ficando maluco por possuir algo tão sombrio e maligno, e tentou descartar tal hipótese tão perturbadora. Entretanto, depois que perdeu o livro, a voz em sua cabeça tornou-se mais presente, mais constante, narrando cada atitude sua, e descortinando cada ideia que pensava em fazer. Era como se ela soubesse sempre de tudo o que faria, revelando tudo o que tinha programado fazer no tempo futuro. Evitando a iminente carga de loucura que insistia em querer se instalar em sua mente, há alguns dias Flávio decidiu concentrar-se na sequência narrativa daquela voz em sua mente. E em um desses momentos de concentração intensa, conseguiu criar um elo conectivo extremo com a voz, e descobriu que ela narrava não apenas suas ações, seus pensamentos, sua rotina diária, mas as ações de outras pessoas que ele sequer conhecia. Nomes começaram a surgir entre as narrações, descrição de situações acontecendo em outras partes da cidade. E foi assim que Flávio ficou sabendo da existência de Hemilly, Henrique e Roney, de como ele perdeu seu livro satânico e de quem o encontrou. Era como se realmente alguém estivesse escrevendo a história de sua vida enquanto ela acontecia diante de seus olhos. Passou a manter o foco na voz onisciente, e cada vez mais concentrado, ficava sabendo de mais fatos e informações importantes, até que um dia teve uma visão de alguém sentado diante de um monitor, digitando incessante em um teclado estranho. Conseguiu visualizar o rosto da pessoa e tudo o que ela escrevia. Abriu os olhos instantaneamente e sussurrou uma frase satisfeito, como se tivesse acabado de resolver uma equação complexa, 'Um escritor escrevendo a história de nossas vidas'.
Depois que encaixou as peças do quebra-cabeça e entendeu aquela visão como uma explicação bastante plausível para o que estava acontecendo, Flávio admitiu que aquilo não poderia ser uma loucura criada por uma mente esquizofrênica, principalmente porque havia encontrado o Livro da Morte muito antes daquela voz começar a soar em seus ouvidos, e agora não encarava nada daquilo como anormalidades ou distorções provocadas por algum tipo de distúrbio psicológico. Saiu da rodovia, invadiu uma estrada de terra, seguindo até perto de um penhasco. Estacionou seu Plymouth Sundance vermelho não muito longe da beira do precipício. Saiu do carro e ficou admirando dali do alto aquela imensa região desértica cheia de platôs. Estava ciente de que, desde que ultrapassou os limites da cidade e dirigiu até aquele ponto, o descoberto escritor estava narrando tudo o que ele estava fazendo e tudo o que estava pensando até aquele exato instante. A voz ecoava naquele momento em seus ouvidos. Agora precisava ser ágil o quanto antes e encontrar uma maneira de apagar ou esconder todo aquele trecho da história que o escritor desenvolvia. Só assim teria uma vantagem que favoreceria um ataque violento e inesperado contra aquele que ele considerava como o principal culpado por ter perdido o seu Livro da Morte. Olhou para o deserto se espalhando pelo horizonte e pensou que aquele local seria o mais apropriado para concluir seu plano. Traria o escritor até ali e o forçaria a mudar todo o rumo da história. Seria a conclusão perfeita para reaver seu Livro da Morte. Flávio controlou sua raiva fechando o punho com um gesto firme. Entrou no carro, faz uma manobra arrojada e seguiu para a rodovia, tomando o caminho de volta para a cidade. Precisava agir mais rápido do que a construção de pensamentos do escritor maldito".

A caneta subitamente parou de escrever, rodopiou para o alto e em seguida desceu flutuando lentamente sobre as folhas escritas de papel. O Escritor Astronauta estava completamente surpreso com aquele trecho redescoberto da sua história. Sabia que tinha escrito aquelas linhas, mas com o sequestro do texto pelo personagem, concluiu para si mesmo que a eliminação daquela parte deve ter provocado alguma espécie de amnésia literária, pois não se lembrava de ter escrito aquilo até o momento em que a caneta revelou tudo para ele novamente. Finalmente sabia o ponto exato onde havia perdido o controle de sua história e de seu personagem Flávio.

Escrito por Ulisses Góes

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Escritor estava se levantando, disposto a subir as escadas em direção ao seu apartamento para tomar uma boa xicara de café como planejado naquele momento quando a viseira de seu capacete foi inundada por uma enxurrada de informações descontroladas. Dezenas de imagens translúcidas acompanhadas de breves chiados e ruídos intercalados deixaram o Escritor atordoado. "Não é possível. Outra interferência? Ou estou sonhando novamente?", esbravejou, lembrando do pesadelo maluco do supermercado que tivera há alguns dias. Balançou o capacete, tentando se livrar daquela interferência, enquanto por comando de voz buscava fechar todas as janelas de informações que surgiam, mas tudo foi em vão. Foi quando nesse momento os ruídos cessaram e começou a escutar uma música ecoando em seus ouvidos. Imaginou que algum dia teria que descobrir a origem de tais intervenções sonoras que apareciam de maneira tão inesperada. Ouviu aquela canção tão familiar do R.E.M. e percebeu que a música parecia controlar todo o fluxo de informações que vinha num emaranhado de notícias diárias, textos científicos, verbetes de dicionários, tutoriais extensos, imagens de programas do canal Discovery, tudo aparecendo e desaparecendo incessantemente em sua viseira. A melodia comandava a onda de informações de forma gradativa até que as imagens começaram a desaparecer num refluxo rápido. "Hey now, take your pills and / Hey now, make your breakfast / Hey now, comb your hair and off to work / Crash land, no illusions, no collision, no intrusion / My imagination runs away". Quando finalmente a viseira de seu capacete estava liberada de todas aquelas imagens, o Escritor olhou para os dois lados da rua e se deu conta de que o movimento das pessoas e carros havia desaparecido. Tudo estava incrivelmente calmo como numa manhã ensolarada de domingo. Era possível ouvir o vento sacudir as folhagens das árvores próximas e criar pequenos redemoinhos de poeira luminosa e papéis pela calçada. O Escritor estava quase entrando em seu prédio quando ali perto o alarme de um carro disparou sem motivo aparente, chamando sua atenção. Foi quando ele viu uma pessoa conhecida andando em sua direção. O conhecido amigo, com um leve sorriso estampado no rosto, caminhava calmamente no meio de um redemoinho de imagens translúcidas, as mesmas que alguns segundos antes tinham invadido a viseira de seu capacete. Todas elas giravam velozmente até a altura um pouco acima da cintura do amistoso amigo, reconhecido logo em seguida. "Ramon? Meu amigo, Você por aqui? Espere um pouco... Você não estava viajando?", interrogou o Escritor. "E estava, lógico. Sempre estou. Berlim é uma cidade fantástica, multifacetada, empolgante, com seus palácios, parques em contraste com uma arquitetura arrojada, moderna, contemporânea", respondeu animado Ramon, o Andarilho Estelar, com uma voz mansa porém constante, sem interrupções, todas as suas frases fluindo num trânsito de palavras descongestionadas. Aproximou-se sem pressa, uma barba cheia quase escondendo suas bochechas, as mãos nos bolsos da calça jeans surrada, uma velha jaqueta cáqui por cima de uma camisa de flanela xadrez vermelha, um gorro cor de doce de leite por cima dos cabelos meio compridos. O redemoinho de imagens desapareceu sutilmente quando Ramon abraçou o amigo que não via há tempos. "Quando dispor de um tempo, aproveite para visitar a metrópole européia, pois tenho certeza absoluta de que sua estadia por lá será revigorante e inspiradora. A culinária é única, recomendação constante de meu amigo andarilho Anthony Bourdain", explicou Ramon, com uma dialética hipnótica comprovada outras vezes pelo Escritor, sempre admirado com a capacidade impressionante que o amigo tinha de quase nunca repetir as mesmas palavras em uma conversa. "Que bom rever você, Ramon. Está de passagem pela cidade?", "Sim, companheiro escriba. Redefini minha rota de viagem, reprogramei escalas e conexões para ter o prazer deste encontro com sua pessoa no centro urbano onde vive. Ou considerou a possibilidade de que eu perderia essa oportunidade maravilhosa e rara? Nos dias atuais, as informações navegam na velocidade de alguém pensando em piscar os olhos. E estou ciente de sua nova obra que está escrevendo. Por isso aqui estou". "Que bom saber que meus amigos estão atentos aos meus trabalhos em andamento. Aproveitando, você não quer subir, tomar um café e me contar as novidades?", perguntou o Escritor. "Mas é claro que sim! Será uma honra imensurável. Vamos, me acompanhe", disse o Andarilho Estelar, apontando para uma porta antiga num muro de um terreno baldio logo ao lado do seu prédio. De início, o Escritor ficou meio confuso, pois nunca tinha visto aquela porta ali antes. Poderia jurar que ela não estava ali antes de Ramon aparecer. O Andarilho Estelar abriu a porta e com um gesto educado e amistoso chamou o amigo para entrar. O Escritor pensou em perguntar o que iriam fazer em um terreno baldio, mas assim que atravessou a porta, desistiu completamente de fazer tal questionamento. Olhou ao redor e reconheceu o ambiente tão rapidamente quanto começou a sorrir. Estavam na sala de estar de seu apartamento. Ramon entrou logo atrás dele e fechou cuidadosamente a porta.
O Andarilho Estelar caminhou despretensioso até o sofá, afastando cuidadosamente algumas imagens translúcidas que flutuavam pelo caminho enquanto outras eram atraídas pela sua presença e começavam a rodopiar lentamente ao seu redor. Sentou-se mansamente, enquanto o Escritor, ainda sorrindo e com receio em perguntar desde quando o amigo começou a abrir Portas Inesperadas, tirou o capacete e foi providenciar xícaras de café. "Meu querido, seu pequeno castelo permanece aconchegante. Quando o visito, sinto-me em um outro mundo, longe da agitação, das multidões. Neste lugar foi construído um recanto de serenidade no qual o tempo desacelera gradativamente", explicava Ramon, sempre fluente nas palavras. "Um ambiente assim é indispensável para mim. Preciso de toda concentração possível para escrever. Qualquer barulho externo pode me atrapalhar ou me distrair, e posso perder todo a minha linha de raciocínio com a história. Eu consigo me concentrar somente com meus próprios barulhos", disse o Escritor, enquanto oferecia uma das xícaras de café para Ramon. "Agradecido, meu caro. Uma boa bebida quente agora é reconfortante e se encaixa perfeitamente no espaço criado", o Andarilho tomou um gole, fez uma pausa breve e continuou, "Você sabia que os dias estão ficando mais curtos? Tudo por causa daquele terremoto no Japão". A informação dita por Ramon fez o Escritor erguer as sobrancelhas, "Como assim mais curtos?". Ramon levantou-se e foi até a janela, como se quisesse observar de alguma maneira o tempo cronológico e invisível que envolvia a Humanidade. "Segundo a NASA, o tremor nipônico de magnitude 9 diminuiu a duração dos ciclos diários terrestres e deslocou seu eixo. Um cientista aplicou um modelo complexo elaborando um cálculo preliminar para mostrar como o 5º maior abalo sísmico da História afetou o planeta. Os resultados indicam alteração na distribuição da massa da Terra devido a catástrofe ocorrida, fazendo essa imensa esfera solta no espaço girar um pouco mais rápido, encurtando o comprimento do dia por cerca de 1,8 microssegundos", Ramon fez uma pausa na explicação para beber outro gole de café e olhou para o amigo sentado no sofá. "Microssegundos? Então é completo exagero considerar que as pessoas perceberão essa alteração", disse o Escritor. "Imperceptível para a raça humana, sem dúvida", ponderou Ramon, alisando sua barba meio ruiva, "Entretanto, convêm considerar que o homem desenvolve suas próprias maneiras de acelerar o tecido temporal de sua época atual, concorda? E são práticas mais eficientes e perturbadoras do que as provocadas pela Natureza, admita. E elas tem nomes: rotina corrida, cotidiano desenfreado. Milhões, bilhões sem saber o que estão perseguindo diariamente", completou Ramon. O Escritor levantou-se e foi em direção à janela, procurando seguir a lógica de raciocínio do Andarilho Estelar, "Acredito que as pessoas estejam perseguindo seus objetivos, suas metas, correndo atrás daquilo em que acreditam". "A maioria corre atrás de objetivos alheios, metas temporárias. Raros são aqueles que seguem seus caminhos mais autênticos, abraçando seus sonhos desafiadores. Exemplo maior está diante de mim agora", Ramon sorriu e curvou-se fazendo um leve gesto de deferência ao amigo. "Quem? Eu? Não, Ramon", retrucou o Escritor sem jeito, "Eu sou igual a todo mundo. Longe de mim ser essa pessoa rara que você descreveu". O Andarilho permaneceu sorrindo, "Incrível sua modéstia. Porém, não admitir uma verdade não significa que ela deixa de existir. Parir mundos e personagens é um dom, admita. Em alguma ocasião, já foi questionado sobre o que o motiva a continuar na carreira literária? O que o impulsiona a seguir adiante?". Tais indagações do Andarilho Estelar deixaram o amigo pensativo, o que o fez lembrar que durante toda aquela manhã tentou em vão pesquisar os possíveis trechos de seu desenvolvimento narrativo onde pudesse ter perdido o controle da história. "O que me motiva a continuar escrevendo é o simples fato de que acredito em tudo aquilo que eu faço, e acredito que é o que eu tenho que fazer sempre... E por isso estou aqui, a manhã toda tentando descobrir em que ponto exatamente minha história ganhou autonomia própria para seguir criando situações as quais não me recordo ter imaginado", explicou o Escritor. Ramon encarou o amigo por alguns segundos, procurando a maneira exata de dizer que já sabia previamente daquela situação complicada, e não demorou a relatar a verdadeira intenção de sua visita. "Compreendo sua problemática e haja visto seu insucesso na pesquisa citada, minha visita aqui é tanto saudosa quanto solidária. Trago ajuda para sua investigação", ao dizer isso, o Andarilho Estelar caminhou até uma outra Porta Inesperada que surgiu ao lado da estante de livros momentos antes enquanto conversavam. O Escritor Astronauta espantou-se com mais aquela porta que tinha certeza não existia há segundos atrás, e pensou na possibilidade do Andarilho ter desenvolvido aquela habilidade em algumas de suas viagens à Ásia. Ramon abriu a porta e acendeu uma pequena lâmpada pendurada no teto, iluminando um pequeno espaço que aparentava ser um armário de bugigangas tecnológicas, algumas familiares como monitores antigos de computadores, caixas cheias de iPods, tablets, e outras estranhas e aparentemente inexplicáveis com seus cabos, transistores e circuitos elétricos, verdadeiros aparelhos que pareciam criados em um universo similar a este conhecido pela humanidade, onde a tecnologia moderna surgiu precoce e extraordinária décadas antes através da ciência disponível na época. O Escritor aproximou-se cauteloso e viu o Andarilho vasculhando o local procurando algo que não demorou muito para encontrar. "Busca bem sucedida", disse, saindo do armário trazendo em uma das mãos o objeto achado. Ramon não demorou para explicar o que seria aquele aparelho. "Aparentemente pode ser confundido com um detector de metais comum. Todavia, este artefato será de uma utilidade primordial para suas pesquisas atuais, já que o mesmo procura e denuncia a existência de trechos literários fora de controle". Após a explicação inicial, o Andarilho entregou o objeto nas mãos do Escritor, intrigado com o que acabara de ouvir, "Você está me dizendo que isso aqui é, basicamente, um detector de textos incontroláveis?". "Brilhante colocação! Exatamente! Prático, eficiente, funcionamento simples. Muito útil também para revelar textos esquecidos, contos abandonados e poesias inacabadas", respondeu Ramon com entusiasmo, e prosseguiu, "Vê aquela porta ao lado de sua mesa de trabalho? Atravesse ela e encontrará o ponto falho e descontrolado de sua narrativa". "Outra porta? Como essas malditas aparecem de repente?", pensou indignado o Escritor, já impaciente com tantas passagens surgindo sem que ele sequer pudesse perceber. Quando decidiu enfim perguntar ao Andarilho Estelar como as portas surgiam, Ramon o interrompeu momentaneamente. Um novo redemoinho de imagens translúcidas surgiu rapidamente girando ao seu redor. Estendeu a mão e pegou uma das imagens contendo uma mensagem de texto enviada para ele naquele exato momento. "Destemido escritor, sinto muito em dar essa notícia, mas não poderei acompanhá-lo em sua varredura importante. Fui alertado de um compromisso programado onde minha presença é indispensável". "Mas e quanto à porta? Como retornarei quando terminar minha busca?", perguntou apreensivo o Escritor, sem perceber que atrás de si outra Porta Inesperada surgiu no mesmo local onde eles entraram da primeira vez para chegar ao seu apartamento. Ramon olhou por cima do ombro do amigo e observou a urgência do momento. Sabia que precisava ir o quanto antes, e por isso suas explicações foram breves e precisas, "Vá despreocupado, a passagem aguardará paciente pelo seu êxito. Saiba que foi formidável estar contigo novamente. Espero vê-lo em breve". O Andarilho Estelar abraçou o amigo, apertou sua mão calorosamente e partiu atravessando a porta que o aguardava. O Escritor olhou silencioso para o detector em sua mão por um breve instante, tempo suficiente para ele não conseguir ver a passagem por onde Ramon entrou desaparecer, situação que começava a deixá-lo chateado. "Maldição. Como elas desaparecem sem que eu consigar ver?", pensou, irritado. Colocou seu capacete e, equipado com o detector, dirigiu-se para a porta ao lado de sua mesa onde estava seu computador e vários papéis espalhados com anotações suas. Girou a maçaneta e em questão de segundos estava pisando na areia fofa de uma praia, iniciando sua busca pelo trecho incontrolável de sua narrativa. Procurava pelo ponto exato onde havia perdido o domínio de sua história.

Escrito por Ulisses Góes
Fotografia: Hunter Freeman

sábado, 25 de agosto de 2012

O Escritor Astronauta saiu daquele apartamento vazio com os pensamentos anestesiados. Desceu as escadas ainda sem entender o que havia acontecido minutos antes com ele naquele lugar. Pensava no guarda-roupa, no leão, na música que tocava sem parar, nas pessoas com as quais ele possivelmente havia conversado e nos livros com personagens de sua história na capa. Foram momentos tão reais que sua mente sentia uma dificuldade imensa em considerar que tudo aquilo foi um sonho maluco. Continuou descendo os degraus, percebendo agora o silêncio que reinava pelo prédio. Não havia mais qualquer música ecoando pelo ambiente. Chegou no corredor que levava ao seu apartamento, e viu as pedras lunares ainda pelo chão, exatamente no mesmo lugar em que estavam quando passou por ali alguns minutos atrás. "Parece que as pedras que Drummond anda deixando por aí definitivamente não fazem parte de meus estranhos devaneios", pensou o Escritor. Caminhou em direção à escotilha de seu apartamento, e quando estava tirando as chaves do bolso de seu traje, notou um pequeno bilhete grudado bem na entrada. "Estive aqui e não encontrei você. Fiz uma descoberta fantástica e preciso que você veja. Assim que puder, me encontre no estacionamento do Shopping ainda hoje. Seu amigo Dr. Brown", dizia a mensagem escrita em um papel tirado daqueles pequenos bloquinhos de lembretes. De início, o Escritor pensou em ignorar aquele recado, pois estava muito ocupado com o seu livro e tinha reservado aquela manhã justamente para pesquisar a respeito do momento exato em que sua história tomou um rumo diferente de tudo o que ele havia imaginado até então. Mas parou um instante, pensativo, ainda com as chaves na mão, e lembrou-se que, mesmo com aquele olhar meio espantado e aqueles levemente desarrumados cabelos brancos precoces para os 34 anos que tinha, Dr. Brown sempre foi um de seus amigos, assim como Sérgio e Caroline, que constantemente inspiravam grandes ideias que eram aproveitadas em seus livros. A mais recente intervenção sugerida por Dr. Brown foi a de trabalhar com a temática de viagens no tempo, sugestão essa que o Escritor achou interessante e incluiu posteriormente no seu trabalho atual, com a personagem Hemilly viajando no tempo utilizando o Destemporizador. Ainda assim, achava estranhas as conversas insistentes do amigo a respeito de deslocamentos temporais onde ele citava constantemente Einstein e sua famosa Teoria da Relatividade. O Escritor guardou as chaves e o bilhete em seu bolso e desceu as escadas, mas foi parado bem no meio dos degraus por um novo bilhete pregado na parede. "Não entre em pânico. Você vai voltar um pouco no tempo. Acredite", era o que estava escrito no papel. "Engraçado. Esse bilhete não parece ser do Dr. Brown. Quem escreveu este tem uma letra muito parecida com a minha", disse o Escritor para si mesmo, olhando desconfiado para aquela caligrafia semelhanta à sua. Em sua viseira apareceu imagens translúcidas de mensagens suas escritas à mão com caneta esferográfica preta, algumas em folhas de caderno, a maioria em folhas de ofício. Fez uma mapeamento comparativo das letras e constatou que aquele bilhete foi escrito por alguém com uma letra idêntica à sua. Guardou esse novo bilhete em seu bolso quando ouviu um barulho forte no andar de baixo, como se alguém tivesse caído das escadas. Continuou descendo, dessa vez com passos mais rápidos, pulando alguns degraus, chegando ao andar térreo com rapidez. Mas não viu ninguém caído, apenas encontrou a porta da frente do prédio aberta, e imaginou que aquilo tivesse sido ação desleixada de alguns dos moradores que não se preocupam com a segurança do local ondem residem. Saiu olhando para os dois lados da rua, como que procurando por alguém conhecido, algum vizinho, mas só visualizou pedestres estranhos. Olhou para o céu, e ficou aliviado ao perceber que não caia mais aquela chuva fina e que o tempo estava melhorando. O Shopping não ficava muito distante de sua casa, então não demoraria muito em chegar ao destino combinado pelo seu amigo Brown. Fez uma rápida estimativa e os números nas imagens em sua viseira mostravam que estaria no local de encontro em no máximo 20 minutos, indo pelo caminho mais curto possível.
Assim que chegou, checou a pequena imagem translúcida de um relógio digital que aparecia na viseira de seu capacete. Como realmente previu, chegou no tempo estipulado ao estacionamento do Shopping, e somente quando começou a procurar pelo Dr.Brown, o Escritor se deu conta da imensidão daquele lugar lotado de carros estacionados. Observando todas as vagas ocupadas, não fazia ideia de onde encontraria seu amigo. Andou sem rumo durante alguns minutos por entre os automóveis. Não seria muito difícil encontrá-lo, já que deduzia que um estacionamento sempre teria mais carros do que pessoas. "Ninguém vem a um shopping para ficar perambulando pelo estacionamento", pensou enquanto olhava para todos os lados, na esperança de avistar Dr. Brown. Mas ao passar próximo de uma Hilux preta parada ao lado de um Sandero vermelho, escutou um barulho sinistro às suas costas, sons finos e estridentes, porém não muito altos. Olhou para trás um pouco assustado, e considerou a possibilidade de algum motorista ter atropelado um animal pequeno, mas descartou logo a hipótese pois concluiu que isso seria improvável ocorrer ali, já que estava no meio de um centro urbano. Os estranhos guinchos ecoaram novamente, e dessa vez o Escritor viu pequenos sopros de fogo surgir atrás de um carro, criando bolas incandescentes que não demoravam a desaparecer no ar. Caminhou lentamente na direção de onde haviam surgido as pequenas labaredas, sentindo o coração acelerado, experimentando uma mistura de medo e curiosidade em seu íntimo, sem fazer ideia do que encontraria à sua frente. Aproximou-se silencioso e então viu, paralisado por um pavor contido, uma garota aparentando não mais que 14 anos saindo por entre os carros, seguida de perto por dois pequenos dragões voadores, descrevendo voos rasantes e discretos pelo asfalto do estacionamento. Ainda sem notar a presença do Escritor assustado com a cena, a jovem, com seus longos cabelos loiros presos atrás por diversas tranças lindamente entrelaçadas e vestida tal qual uma nômade de tribos de desertos distantes, esgueirava-se rápida juntamente com seus dois seres reptilianos alados cuspidores de fogo. Parecia perdida, como se estivesse desesperada procurando uma saída daquele lugar completamente estranho para ela. Ainda apavorado, o Escritor presenciou aquela situação como uma vaga sensação familiar percorrendo sua mente, como se já tivesse visto aquela garota e seus dragões em algum outro lugar, um notíciario ou um livro conhecido. Um dejá vù atravessou seu corpo, provocando um calafrio em sua espinha. Sem fazer barulho, seguiu a jovem de uma distância segura. Olhou por baixo de uma Pajero branca, e encontrou a menina agachada entre dois carros, com os pequenos dragões escondidos embaixo de um dos veículos. Nesse momento, o Escritor Astronauta sentiu uma mão tocando seu ombro com firmeza, e um novo susto o fez encolher-se todo contra o pneu da Pajero onde estava apoiado. Felizmente, era Dr. Brown vestido como um arqueólogo aventureiro, com seus olhos meio espantados e seus cabelos brancos sempre desarrumados, ainda que estivesse usando um chapéu estilo Indiana Jones. "Então você está aqui! E pelo que vejo, parece que já encontrou minha descoberta fantástica, hein?", disse Dr. Brown num sussurro entusiasmado. "Doutor! Você me assustou!", disse o Escritor, sentindo o coração mais acelerado ainda. Meteu a mão em seu bolso, pegou os bilhetes e os entregou ao amigo, "Eu recebi seus recados". "Recados? Ah, sim, eu deixei um bilhete para você quando fui em sua casa. Esse outro recado não é meu, eu não escrevo tão horrível assim", disse Dr. Brown, enquanto amassava os dois pedaços de papel e os jogava longe. "Mas Doutor, eu encontrei esses dois...", o Escritor tentou explicar sobre os bilhetes, mas foi interrompido pelo amigo, visivelmente animado, "Incrível, não é? Eu a encontrei faz um semana em um outro estacionamento. Tentei fazer contato, mas ela não entendeu minha aproximação, se assustou e desapareceu com seus dragões. A princípio, eu pensei que poderia ser maluquice minha, mas então hoje encontrei ela aqui no estacionamento desse Shopping, e só então decidi procurar você", explicou Brown, quase sem folêgo. "Mas eu não entendo. De onde ela veio? E aqueles bichos seguindo ela? São... dragões?", indagou o Escritor, confuso. "Eu acredito que ela tenha encontrado, acidentalmente, alguma fissura no tecido espaço-temporal e acabou passando através dele para o nosso mundo", o Dr. Brown ajeitou seu chapéu, ajoelhou-se e observou a garota e seus dragões por baixo do veículo, como se estivesse analisando seu comportamento e suas expressões corporais. Então prosseguiu com suas mirabolantes explicações, "Quando a vi pela primeira vez, ela demonstrava estar confusa e amedrontada, e falava uma língua estranha. Quando me aproximei, os pequenos dragões que a acompanhavam reagiram cuspindo fogo contra mim". "Como se estivessem protegendo a menina?", perguntou o Escritor. "Exatamente! Agora ela deve estar procurando novamente uma outra abertura espaço-temporal para voltar para o seu mundo". A cada nova explicação do amigo, o Escritor estampava uma expressão diferente de espanto em seu rosto. E quando se preparava para fazer uma nova pergunta, pequenos redemoinhos de ventos começaram a se formar próximos de onde estavam escondidos. O Escritor olhou para o Dr. Brown, que segurava o seu chapéu na cabeça para que não fosse levado pelo vento enquanto admirava toda aquela situação com um sorriso de satisfação em seu rosto. "Isso é fantástico! Acredito que estamos a ponto de presenciar o rompimento do tecido espaço-temporal aqui, neste estacionamento!", disse o Dr, eufórico. "Você está dizendo que algum tipo de portal vai se abrir no meio do estacionamento do shooping?", perguntou o Escritor. "Sim! Exatamente! Esses portais devem surgir ocasionalmente e permanecem abertos por questões de segundos". "Isso é loucura", disse o Escritor, vendo imagens translúcidas em sua viseira com informações sobre velocidade do vento e alterações nas frequências das ondas de som ocorrendo em uma pequena área do estacionamento. Então eles escutaram um zumbido estranho seguido de um rápido clarão e de um barulho implosivo. De onde estavam, presenciaram a abertura de um pequeno portal dimensional entre dois carros estacionados ali próximos, um Corsa Sedan preto e um CrossFox cinza. Não demorou muito e viram a garota de tranças passar correndo com seus pequenos dragões em direção à fissura aberta. "Vamos! Não podemos perder essa oportunidade!", disse Dr. Brown cheio de entusiasmo, partindo em seguida atrás da menina. "Espere! O que você pretende fazer?", indagou o Escritor, mas sem obter qualquer resposta do amigo, que no meio do caminho deixou cair uma caneta esferográfica e um pequeno bloco de anotações. "Doutor!... Espere!... Doutor!", gritava o Escritor em vão. Não podia deixar o amigo cometer qualquer tipo de loucura que colocasse sua vida em perigo, e saiu atrás dele, apanhando a caneta e o bloquinho de anotações largados na aslfato e guardando no bolso de seu traje. A garota nômade atravessou o portal com os dragões cuspidores de fogo, e em seguida foi a vez de Dr. Brown passar pela fissura. O Escritor sabia do perigo que envolvia aquela situação toda, mas não pensou duas vezes em acompanhar o amigo maluco. Passou pela fissura e encontrou-se no meio de um deserto imenso cheio de platôs sob um sol escaldante. A garota corria ao longe junto com seus dragões, e atrás dela a figura espontânea, exploratória e destemida do Dr. Brown, seguindo aqueles personagens de um outro universo. Gritou o nome do amigo, mas ele parecia completamente indiferente aos seus chamados. Quando estava prestes a continuar seguindo Dr. Brown, sentiu uma força estranha atrás de si segurando seu corpo e o impedindo de movimentar-se. Era aquela fissura criando uma poderosa força gravitacional ao redor dela e atraindo o Escritor de volta para a abertura. Rapidamente ele foi sugado de volta pelo portal, sendo jogado a alguns metros contra o chão do estacionamento. A abertura espaço-temporal começou a se consumir, como se estivesse engolindo a si mesma para enfim desaparecer como um ponto luminoso numa implosão silenciosa. Aturdido, o Escritor Astronauta permaneceu alguns segundos no chão, até se levantar assustado pelo som da buzina de um carro que quase o atropela naquele momento. Ficou parado alguns instantes no meio daquele imenso estacionamento do shopping, tentando entender o que havia se passado minutos antes. Olhou para todos os lados, na esperança de ver Dr. Brown por ali, mas sabia que seria uma busca em vão.
Retornou para casa, dessa vez sem se importar muito em fazer o caminho mais curto, optando por um novo trajeto, enquanto pensava no que poderia acontecer com Dr. Brown perdido por terras estranhas em um universo desconhecido. Quando estava próximo ao quarteirão onde ficava seu apartamento, o Escritor percebeu em sua viseira algo errado com seu relógio digital. Ele estava marcando um horário 25 minutos anterior ao horário em que havia saido naquela tarde para o encontro marcado no estacionamento do shopping. "Aquele portal deve ter alterado a configuração do horário", pensou. Lembrou-se que ali perto, em um cruzamento movimentado no centro da cidade, havia um relógio de rua em formato de Iphone. Sem demora, caminhou em direção onde as duas avenidas se encontravam sempre congestionadas e avistou o imenso Iphone registrando a temperatura e a hora local, e ao ver o horário que ele marcava, arregalou o olhar. O relógio de rua também estava 25 minutos atrasado, exatamente igual ao seu relógio digital. "Isso não é possível", disse boquiaberto. Na esquina oposta do cruzamento, avistou outro homem careca, de terno e gravata, segurando uma maleta e mexendo com uma das mãos algo que parecia um pequeno tablet dourado. Subitamente parou o que estava fazendo e olhou na direção em que se encontrava o Escritor. "Novamente esses Observadores estranhos", pensou, enquanto retomava o caminho de casa, confuso com aquele horário atrasado. Entrou no prédio onde morava com uma sensação maluca de deslocamento, que o estava deixando um pouco tonto. Estava subindo as escadas, reordenando seus pensamentos e disposto a esquecer tudo aquilo e retomar as pesquisas que havia planejado fazer naquela manhã com seu livro, quando chegou no corredor e um visão surreal fez paralisar completamente todos os seus movimentos. Viu a si mesmo parado ali bem diante da escotilha de seu apartamento, com as chaves na mão e lendo um bilhete. Recuou atônito para as escadas, o coração disparado, tentando assimilar tudo aquilo. Começou a sentir falta de ar, e uma tontura mais forte fazia seus pensamentos colidirem uns nos outros numa velocidade catastrófica. Estava a ponto de perder os sentidos a qualquer momento, mas precisava de qualquer maneira não deixar aquele pânico tomar conta de seu cérebro. Lembrou-se do recado que havia encontrado exatamente onde estava e, seguindo a orientação do que tinha lido naquele pedaço de papel, procurou rapidamente se controlar. "Eu voltei no tempo. Eu voltei no tempo. Não é possível, mas eu voltei no tempo, eu voltei no tempo, eu voltei no tempo", repetia sem parar o Escritor, que começou a se tocar, como se quisesse ter certeza de que ele existia realmente naquele momento. Ao tocar no bolso de seu traje, lembrou-se do bloquinho e da caneta que o Dr. deixou cair no estacionamento e que tinha pego de volta e guardado consigo. "Sim, o bloco de anotações. Preciso deixar um recado para mim mesmo. Sim, um aviso, preciso avisar a mim dessa viagem maluca no tempo, senão entrarei em colapso quando eu me encontrar comigo novamente em breve. Mas o que estou dizendo? Fez sentido o que eu disse agora?", sussurrava freneticamente o Escritor, enquanto tentava controlar sua respiração e escrever o bilhete com o recado "Não entre em pânico. Você vai voltar um pouco no tempo. Acredite". Assim que terminou de escrever, pregou o pequeno papel autocolante na parede e desceu nervoso o lance de escadas que faltava em direção ao primeiro andar. Enquanto descia as escadas entre o primeiro andar e o térreo, desequilibrou-se e caiu rolando pelos degraus. Levantou-se rápido, pois sabia que o barulho de sua queda acabaria chamando a atenção do seu outro "EU", que já deveria estar também descendo as escadas em pulos flutuantes. O Escritor, mesmo aturdido com a queda, correu para fora do prédio, deixando para trás a porta aberta, e se escondendo atrás de um carro estacionado ali próximo. Esperou ainda alguns momentos, aguardando seu outro "EU" terminar de fazer as tais estimativas de quanto tempo levaria para chegar o mais rápido possível ao estacionamento do shopping. Ainda escondido, conseguiu ver a si mesmo atravessando a rua rumo ao encontro marcado com o seu amigo Dr. Brown. Respirou fundo e sentou na calçada da rua. Seu fluxo de pensamentos voltava ao ritmo normal, assim como sua respiração e seus batimentos cardíacos, como mostrava as informações translúcidas na viseira de seu capacete. Tudo o que o Escritor queria agora era tomar um boa xícara de café e fumar um cigarro na calmaria silenciosa de seu apartamento.

Escrito por Ulisses Góes
 
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