terça-feira, 25 de maio de 2010

Teoria de Walter Bishop

 
Eu senti novamente e claramente aquela sensação lógica de que devo parar de fazer alguma coisa que não faz mais nenhum sentido para mim. Isso já me ocorreu raras vezes em minha vida, em outras épocas remotas e de maneira bem peculiar. É um sentimento que me invade e me preenche de questionamentos sobre aquela atitude que estou tomando ou aquela ação que estou praticando. Fico então olhando para o tempo e me perguntando mentalmente, "Por que ainda faço isso? Qual a razão de continuar fazendo isso?". Tudo isso vem seguido imediatamente de afirmações que parecem querer apenas responder minhas indagações interiores, "Não há mais razão de você agir assim, já que isso para você não traz qualquer sensação de realização ou de amadurecimento pessoal". E então me veio à mente aqueles escritores atormentados por seus dilemas mais profundos, que os conduzem a encruzilhadas em suas vidas nas quais eles precisam decidir por um caminho apenas. Perder-se completamente numa trilha de situações esporádicas e sem importância, ou buscar seu caminho de aprimoramentos e evoluções pessoais? Lembrei-me agora da última visita que Cainã me fez, onde eu falei pra ele com toda sinceridade que aquele "Ulisses" que ele conhecia pretendia mudar e dar novos rumos à sua vida. Ele fez um ar de espanto, como que não acreditando em princípio nas minhas palavras. É como se durante todo o tempo que ele me conheceu e me conhece, ele tivesse gravado em sua mente e seu espírito apenas uma imagem minha, tão somente uma imagem nítida e imutável, aquela que permaneceria por todas as nossas vidas e enquanto nos conhecêssemos. Minhas explicações continuavam, e eu expressei para ele aquela sensação que sempre tenho comigo, a sensação de que vivo em um universo paralelo, um universo a qual não pertenço e que fui conduzido sem saber, assim como o personagem Peter Bishop, da série Fringe.
Não que eu tenha me arrependido de conhecer todas as pessoas que conheci, especialmente aquelas que se tornaram as mais importantes e especiais para mim, meus dois afilhados, meus amigos mais preciosos e raros, pessoas que cruzaram minha vida e deixaram suas marcas praticamente inerentes em meu ser, meu espírito. Não me arrependo nunca de as ter conhecido. São meu maior tesouro dessa vida. O que considero apenas como erro foi alguns caminhos que escolhi e que tracei equivocadamente durante épocas importantes de minha vida. Não sei se era realmente para tudo ser assim desse jeito. Podia ter sido diferente. Tudo podia ser um pouco diferente, e então teríamos um mundo um pouco diferente do que temos hoje. A lista de convocação de Dunga para a Copa 2010 podia ser diferente. O final de Lost podia ser diferente. O acidente de Bono essa semana durante ensaio da tour do U2360º podia não ter acontecido. Tudo podia ser diferente, e no entanto, foi do jeito que foi, e aqui estamos. Divagar sobre essas possibilidades outras é querer caminhar em realidades paralelas, aquelas que podem existir mas que nunca realmente saberemos se elas existem de fato.
A certeza que tenho, assim como algumas outras que sempre carrego comigo, é de que sempre que tenho a sensação que descrevi no início desse texto, eu acabo realmente tomando uma decisão radical, sumária, irrevogável, irreversível. Diante dessas sensações e de minhas decisões baseadas nelas, nunca voltei atrás, nunca me arrependi, nunca retrocedi. Essas decisões são as que mais me fizeram amadurecer como ser humano, como pessoa. O que eu espero é que, no final, todas elas tenham me levado definitivamente ao lugar ao qual eu pertenço de verdade. O lugar onde minha essência é minha realidade completa.
 
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