quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sem tocar o chão

 
Tenho escutado uma música de forma insistente e quase hipnótica nesses últimos dias. Claro que escuto outras, mas essa música em especial tem tocado constantemente em minha playlist e invadiu meus ouvidos praticamente todos os dias. Fui desenvolvendo um raciocínio sutil, tentando entender o motivo que me leva a ouvir ela sem parar. Amadureci essa sensação e desenvolvi minhas idéias sem pressa, até que percebi o que ela queria. Ela queria ser remodelada por mim, reestruturada em verso, recriada em arte poética. Esse foi o sinal. E eu então esperei o momento certo, a hora noturna, o silêncio boêmio que somente eu consigo escutar, a solidão presente, e deixei fluir tudo o que essa música quis dizer para mim. A música? Fragile Tension, do recente álbum Sounds of The Universe, do Depeche Mode. Inclusive postei ela aqui em minha última passagem contaminada pelo blog.
Acredito que o que escrevi fala de amor, um amor entre duas pessoas, um amor que nasce sincero, despretencioso, mas que com o tempo acaba perdendo sua essência vital, e se desgasta através de sentimentos distorcidos, como insegurança, ciúme, obsessão, desconfiança, desrespeito, imaturidade, crueldade, indiferença. Era para ser amor, mas não foi filtrado e se deixou contaminar por tudo aquilo que destrói o sentimento puro. As pessoas ainda tem o amor dentro delas, mas não é mesmo do início. É algo fragilizado, sempre no limite de sua existência, pulsando momentos críticos, ou decisivos, suspirando suas agonias terminais. O sentimento cativante sumiu, dando lugar a uma sensação de atordoamento, de torpor profundo, que tira teu sono, que desequilibra teus dias e escurece ainda mais tuas noites. Não tive intenção de explicar o que a letra original da música do Depeche Mode queria passar para quem a escuta. Foi apenas um caso simples onde sou possuído pelo minha força interior que me diz quando escrever, como escrever e o que devo escrever. E dessa vez escrevi não sobre o inicio, mas sobre um possível fim, onde as pessoas sempre ficam com a sensação de que seus amores ainda tem chances de sobrevida, de sobrevivência, de retorno. E justamente por isso continuam a acreditar que tudo sempre é possível, mesmo que você esteja em queda livre perto de se espatifar no chão.

Queda Livre

Essa tensão fragilizada tão firme
sobrevivendo em intervalos rápidos
enquanto respiramos este ar tenso
intensificando o tempo relativo
ativando nossa eternidade que não dura
Eu sei que não dura para sempre
Mas que sempre está fluindo

Existe algo de mágico sugando o ar
Algo trágico tentando nos sugar

Essa estranha obsessão de cinema
cercando nossos limites numa tela de LCD
Nunca conseguimos entender o motivo
O princípio ativo desse ópio relativo
ativando nossa obscura humanidade
Nessa nossa idade dissimulada
que simulou uma cruel fuga armada

Existe algo de místico em nosso sonhar
Algo plástico causando nossa falta de ar

Essa sensação artificial de sabor "doce"
Esse amor voando em colapso puro
Descendo vertiginoso na estratosfera
Esse sentimento atordoante nos espera
Existe algo radical em nossas mãos
Mas nada lógico em nossos planos


Ulisses Góes ~ abril 2010
 
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