terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Cacaos // capítulo 2

 
Durante muitos dias, na solidão de suas caminhadas sem destino certo por entre as plantações de cacau, o jovem dedicou todo o seu tempo na busca incessante pelo mico-leão dourado. Olhava atrás das pedras, pelas árvores, nos galhos dos cacaueiros, mas nada encontrava, a não ser a sua voz solta em ecos solitários pela mata. Às vezes ficava a se perguntar sobre o que realmente procurava. Era o momento da dúvida e da insegurança. Mas novamente algo se mexia por entre as folhagens, e o íntimo do jovem mais uma vez se agitava. Seus pensamentos sumiam, seus movimentos cessavam, e sua atenção se voltava na busca do pequeno habitante das matas. Ficava imóvel, inerte, na esperança de rever o mico. Quando percebia que sua espera era completamente inútil, sentava-se desanimado, e ficava a recordar da época em que havia trabalhado como voluntário em um projeto de uma ONG, que tinha por objetivo o equilíbrio sistemático entre áreas verdes e centros urbanos em diversas regiões do planeta. Lembrou de ter visto o mico-leão dourado incluído entre as espécies catalogadas como passíveis de extinção e que mereciam atenção especial por diversos órgãos do setor. Mais uma vez ruídos o despertavam de um transe reflexivo, e mais uma vez a agitação, a ansiedade, a busca, a angústia e o desespero por não encontrar absolutamente nada. Desesperado por não encontrar aquilo que tanto desejava, o jovem corria por entre as árvores, gritando os nomes das pessoas que um dia chegou a conhecer. Exausto, caía no chão, já ciente de que não procurava mais o mico, e sim, procurava alguém que viesse em seu socorro. Procurava pessoas. Procurava ajuda. Mas não encontrou ninguém, nem ao menos uma sombra, um vulto qualquer escondendo-se pelos vãos verdes da floresta largada.

E os dias eram nublados e cinzentos, e as noites eram escuras, de Lua e estrelas mortas. O jovem caminhava sem direção, apenas guiado pela sua imensa vontade de continuar vivo. Nunca mais viu o mico-leão dourado. Apenas pressentia sons, e sentia calafrios por causa disso. Lembrava-se do pequeno animal peludo sentado sobre as patinhas traseiras, sua cabecinha impaciente a olhar para todos os lados. E então experimentou continuamente, durante poucos segundos, o pulsar da vida. Era aquela mesma sensação momentânea de quando vira o mico. Uma sensação rápida, como uma gota d’água lançada num imenso deserto escaldante. O jovem não estava conseguindo reter essa gota por muito tempo mais, mas não desistia. Sabia que precisava insistir sempre, para que pudesse transformá-la em algo maior, um lago, um mar, um oceano. Mas o medo, a angústia e a solidão eram atribulações ainda presentes, tentando evaporar essa gota d’água. Tormentos cáusticos, cauterizando, convertendo o pulsar em escaras. As areias do deserto sugando uma gota d’água.

Sentindo o peso do cansaço causado pela longa jornada daquele dia, o jovem sentou-se à sombra de um Jequitibá. Descansava aos pés daquela imensa árvore, e pensava num modo de sair daquela situação, em como acordar de um pesadelo angustiante. Um pesadelo real, que o deixava cada vez mais acordado, vivendo numa realidade cruel e adversa. Meteu a mão no bolso direito de sua calça jeans surrada e encardida, e daí tirou sua carteira. Entre documentos, cartões de crédito e algum dinheiro, encontrou uma foto. Era uma foto de sua família. Seu pai, sua mãe, seus dois irmãos mais novos, e ele. Tinha quinze anos na época, e agora com vinte e um anos, o jovem tentava transpor a barreira do tempo, desmaterializar todos aqueles seis anos em que havia passado longe de sua família e de sua terra natal e voltar atrás. Acordar exatamente no dia em que aquela foto havia sido tirada.

Fechou os olhos então, e em poucos segundos estava revivendo um momento perdido no passado de sua vida.

Sentiu a brisa leve do mar assanhar seus cabelos castanhos, bem claros. Podia ver ao longe garotos brincando nas areias da praia. Levantou-se, aprumou o olhar, avistou seus dois irmãos entre os garotos. Ouviu alguém chamar seu nome. Sua mãe, um pouco mais distante, jogou-lhe um aceno de mão.

“Venha”, dizia ela, “Vamos tirar uma foto. Chame seus irmãos”. Ele tentava responder, mas não conseguia, apenas ficou parado, olhando sua mãe caminhar de volta pela praia. Seus irmãos continuavam brincando despreocupados naquela manhã ensolarada. Então, tudo ao seu redor ficou turvo, distorcido, e o que lhe parecia tão real desmanchou-se suavemente. As imagens de seu passado diluíram-se lentamente.

Lágrimas brotaram de seus olhos, rolando pelo seu rosto, e tocando silenciosas a terra na qual ele estava adormecido.A saudade pulsava forte dentro de teu peito. E foi justamente esse sentimento que o fizera decidir regressar para Itabuna. Era como uma espécie de chamado, uma voz distante, um som estranhamente familiar. Uma voz que se transformava num coro cheio de harmonia. Olhou a foto, tirada num belo dia de verão. Ouviu rugidos de trovões sobrevoando o céu nublado. A solidão apertou-lhe o coração. Aquela mesma solidão de cidade grande, que havia decidido enfrentar quando deixou sua terra natal, aquele pequeno mundo de cidade do interior, para ir buscar novos horizontes no progresso alucinado do Sul do país. Havia deixado seus quinze anos para trás, guardados na casa de seus pais, na rua onde havia crescido, na cidade onde havia nascido. O que viesse por agora guardaria em sua mochila pendurada em seu ombro. Ganhou a estrada, descobriu seu espírito aventureiro, seu sangue de peregrino, andarilho em busca de seus sonhos. Desvendou novos caminhos, pequenas outras trilhas por onde poderia caminhar. Ganhou encruzilhadas, e o direito de escolher o melhor caminho para si, mesmo que isso significasse a descoberta do erro. Outro rugido ecoou pelo ar. Agora, os caminhos estavam perdidos pela mata, escondido pelas ervas daninhas, e precisavam ser redescobertos. O jovem sabia que precisava reencontrar os caminhos. A foto permanecia em sua mão, enquanto tentava lembrar-se da última vez em que entrou em contato com sua família. Talvez uma terça-feira, ou uma sexta-feira, havia conversado pelo MSN com sua mãe, avisando que estava se preparando para ir passar o Natal com eles, o primeiro depois de seis anos longe de casa. No dia seguinte, numa conversa pelo videofone, a primeira também em seis anos, criou coragem e pôde então rever os rostos de seus pais, e seus irmãos já mais crescidos, já em plena adolescência. Quando desligou, não conseguiu conter as lágrimas de saudade, e estava realmente decidido a voltar. Iria novamente cair na estrada, dessa vez para retornar à sua terra natal, a terra das árvores dos frutos dourados.
 
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