domingo, 19 de agosto de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Vizinhos

 
Aquela manhã fria e chuvosa era um manso conforto para o Escritor Astronauta, depois da noite angustiante que havia experimentado, sendo atormentado pela presença sombria daquele ser misterioso mostrando seu sorriso deformado e seu olhar doentio de psicopata. Olhava pela janela o céu nublado e a chuva fina caindo, enquanto fumava um cigarro entre goles de um café que tinha feito assim que acordou. Em seus pensamentos concentravam-se ainda alguns resquícios arrepiantes de lembranças do que ocorrera há poucas horas. Um leve calafrio percorreu sua espinha, como se uma presença tenebrosa tivesse passado rapidamente por ali, aproximando-se de sua nuca e soprado um vento congelante. Olhou ao seu redor com certa desconfiança, apenas para certificar-se de que não havia nada ou ninguém por perto. Tomou outro gole de café, e lembrou-se do email recebido no dia anterior com aquela frustrante notícia da Editora. Precisava definitivamente afastar todos aqueles pensamentos e lembranças que pudessem, de alguma forma cruel, trazer à tona novamente sentimentos depressivos e, consequentemente, aquele ser perturbador e tenebroso. Procurou concentrar-se no desenvolvimento da história de seu livro. Precisava dar seguimento às ideias planejadas para as páginas seguintes, além de descobrir como aquela parte da história em que havia parado acabou tomando um rumo tão diferente do que ele havia imaginado. As imagens translúcidas continuavam a flutuar por toda parte, e o Escritor observava agora cada uma delas com extrema atenção, buscando lembrar até que ponto da narrativa ele tinha realmente imaginado todas as situações acontecendo com seus personagens. Correu a mão por imagens próximas, que mostravam cenas nítidas dos dois irmãos fugindo dos agentes que os perseguiam, depois puxou outras cenas, e em uma delas aparecia Hemilly utilizando pela primeira vez o Destemporizador. Em outra cena, Henrique descobria o Livro da Morte num dia de chuva e saía correndo pela rua tentando inultimente não ficar molhado. Naquela manhã, o Escritor gastou um bom tempo fazendo um pesquisa em seu livro, relendo trechos escritos, procurando falhas na narrativa, pontas soltas na história, numa tentativa de encontrar o ponto exato onde ele possa ter perdido um certo controle da trama criada. Estava concentrado em uma das imagens flutuantes quando um barulho no teto tirou momentaneamente sua atenção. Olhou para cima intrigado, tentando imaginar a origem daquele som incômodo. "Parece alguma coisa sendo arrastada", pensou, enquanto seu olhar permanecia mirando o teto. Alguns segundos se passaram até que o silêncio predominasse novamente, tranquilizando o Escritor que retornou a observar atentamente as imagens translúcidas. Porém, não demorou muito para o barulho retornar, atrapalhando o trabalho minucioso que estava fazendo. "Mas o que está acontecendo lá em cima? Esses vizinhos nunca fizeram barulho antes. O que será que estão arrastando?". Cismado com aquela situação que visivelmente lhe causava um desconforto sonoro, decidiu sair e tomar conhecimento do que se passava no andar de cima. Colocou seu capacete, abriu a escotilha e escutou pela primeira vez um barulho abafado de música ecoando pelo corredor. Enquanto fechava a escotilha, percebeu algumas pedras lunares esquecidas próximas à escada de acesso ao andar superior. "Aposto que isso é trabalho de Drummond. Essas pedras só podem ser dele. Preciso falar com o pai desse menino ainda hoje", pensou, e enquanto subia as escadas, ouvia aquele barulho estranho e insistente, além da música com acordes meio familiares aos seus ouvidos. Subiu mais alguns degraus e chegou ao corredor do andar de onde todos aqueles sons pareciam surgir. Havia no chão um estranho rastro de algo branco, parecido com algodão. O Escritor agachou-se e tocou com os dedos, sentindo uma leve textura macia e gelada. "Isso é neve?", indagou para si mesmo, seguindo com os olhos aquela trilha branca que mais adiante sumia por uma porta entreaberta de um dos apartamentos. Levantou-se e continuou andando discretamente pelo corredor, quando começou a escutar acordes conhecidos de uma música do Pink Floyd. Ao chegar na porta, conseguiu ouvir com clareza "Comfortably Numb" ecoando em seus ouvidos. Bateu na porta e soltou um "Olá" interrogativo na esperança de que alguém viesse receptivamente ao seu encontro, mas não obteve qualquer resposta, e ninguém apareceu. Empurrou lentamente a porta e ensaiou dois passos para dentro do apartamento quando descobriu, espantado, um vasto ambiente iluminado pela luz mansa daquela manhã chuvosa. Considerou a possibilidade de que aquele apartamento parecia ser maior por dentro do que realmente mostrava ser por fora. O rastro misterioso de neve atravessava toda a extensão do salão e terminava em um guarda-roupa antigo de madeira, onde mais neve se acumulava em um monte que saía por uma de suas portas. O restante do ambiente era dominado por uma ausência de móveis, um teto com a pintura descascando em diversos pontos, pilastras de ferro corroídas completamente pela ferrugem e um chão coberto de poeira acumulada de muito tempo. "Olá", disse mais uma vez o Escritor, que não encontrava qualquer sinal de resposta, estranhando aquele apartamento ser tão imenso e, aparentemente, não encontrar seus moradores. Viu em um canto um velha vitrola tocando um disco de vinil, e percebeu que era dali que vinha o som daquela música nostálgica. Quando então decidiu caminhar na direção da origem da canção, revelou-se o inesperado para ele. Não havia gravidade dentro do apartamento. Ao invés de dar um passo, o Escritor Astronauta saiu flutuando suavemente pelo ambiente. A música ecoava pelo salão junto com os ruídos característicos de um disco com alguns arranhões e chiados, à medida em que ele voava, girando lentamente acima da trilha de neve, indo de forma estranha ao encontro daquele guarda-roupa. O tempo parecia seguir inerte ali dentro, com os segundos sendo devorados por uma eternidade calibrada. O Escritor viu a porta do guarda-roupa ser bruscamente aberta por uma rajada de vento vinda de seu interior, para no momento seguinte sair dali de dentro um leão, num salto majestoso, caminhando e sentando calmamente alguns metros à sua frente. O Escritor Astronauta, levemente assustado, sentiu uma descarga de adrenalina em seu corpo ao ver aquela fera observando silenciosamente sua viagem aérea. A música havia chegado ao fim, e só se ouvia o barulho do vento uivando naquele vasto ambiente, um vento que começou a ficar mais forte, poderoso o suficiente para lançar o intruso visitante de volta pelo salão imenso, jogando-o para fora do apartamento e arremessando-o contra a parede do corredor. A porta, que minutos atrás encontrou aberta, fechou-se bruscamente. Atordoado, levantou-se depois de alguns segundos e ficou imaginando o que foi tudo aquilo que aconteceu naquele momento. O rastro de neve no corredor havia desaparecido, e estranhamente começou a escutar a mesma música do início novamente. Movido por uma curiosidade corajosa, decidiu tocar a campainha, mas ela não estava funcionando. Relutou um pouco, e por fim deu três batidas firmes, aguardando pacientemente, até que alguém abriu a porta. "Bom dia", disse o Escritor, já percebendo que não se tratava do vizinho que morava ali e que ele conhecia há tempos, "Desculpe incomodar você assim tão cedo". "Não se preocupe, eu costumo acordar cedo", respondeu educadamente o jovem que aparentava ter pelo menos uns 27 anos. Cabelos lisos compridos e barba por fazer, ele estendeu a mão em gesto de cumprimento. O Escritor retribuiu amistoso e perguntou meio confuso, "Não me recordo de você. Você é novo aqui no prédio?". "Sim, nos mudamos ontem para cá, eu e meu irmão. Eu sou David, muito prazer. Aquele ali deitado no sofá lendo é o meu mano caçula, Elton", disse o rapaz, apontando para um garoto, aparentando uns 14 anos, completamente concentrado na leitura de um livro onde, na contracapa, o Escritor podia enxergar com nitidez a foto do autor, C.S. Lewis. Olhou sutilmente por sobre o ombro do novo vizinho e percebeu que o apartamento por dentro não era o mesmo que ele tinha visto e entrado minutos atrás, mas sim, um simples apartamento como todos os outros daquele prédio, inclusive quase idêntico ao seu próprio. "Muito prazer, eu sou seu vizinho do andar de baixo. Eu me chamo...", o Escritor estava prestes a se apresentar quando David o interrompeu com um ar meio surpreso, "Espera um pouco, eu acho que eu te conheço. Você não é aquele escritor conhecido que lançou uma série de livros contando a saga dos jovens vajantes do Tempo?". Aquela pergunta rapidamente chamou a atenção de Elton, que desviou seu olhar meio arregalado de espanto em direção à porta onde se encontrava o Escritor Astronauta. "Cara, que surpresa. Meu irmão tem todos os seus livros. Elton, olha quem é nosso vizinho", David mal terminou a frase, e Elton já estava bem ao seu lado, sorridente, com um brilho admirado no olhar. "É sério que você é vizinho da gente?", perguntou entusiasmado o adolescente. "Sim, eu moro no apartamento de baixo, mas...". "Acho que você já percebeu que tem um fã de suas histórias aqui", disse David, sem deixar que o seu vizinho visitante terminasse a frase, "Não é comum hoje em dia a gente ter um irmão que prefere ler livros do que ficar jogando videogames. Graças ao nosso pai que Elton gosta de ler desde criança". "Sim, de fato, concordo com você, infelizmente o hábito da leitura não é algo importante para os jovens de hoje", respondeu o Escritor, com os pensamentos um tanto confuso com aquela situação toda. Não se lembrava de ter visto nenhuma mudança no dia anterior ou em qualquer dia da semana, e o fato de o terem reconhecido como um provável escritor famoso o deixou cismado. Estava prestes a perguntar sobre aquele assunto com David, quando foi convidado a entrar. "Obrigado, David", disse, aceitando o convite, acompanhando os dois irmãos até a sala, onde viu novamente aquela mesma vitrola antiga tocando o mesmo disco de vinil, impregnando o ambiente com a canção nostálgica do Pink Floyd. Logo ao lado haviam pilhas de discos e livros. "Que interessante. Você tem uma relíquia que ainda funciona", comentou o Escritor, curioso. "Sim. Esse Toca-discos foi de meu pai. Eu gosto de ficar ouvindo alguns discos dele, sempre tenho boas lembranças", explicou David, de braços cruzados, com uma expressão perdida em memórias enquanto mirava o vinil girando no aparelho. "Como eu ia dizendo, eu moro no andar de baixo, mas eu não...", O Escritor não conseguiu terminar mais uma frase, sendo novamente interrompido, desta vez por Elton. "Espera só um instante, eu já volto", disse o garoto, correndo em seguida para o seu quarto e voltando momentos depois com 5 livros e uma caneta em suas mãos. "Eu imaginava que você não perderia essa oportunidade", disse David, ainda de braços cruzados, olhando com uma expressão sorridente para o irmão entusiasmado com aquele momento. "Você pode autografar os meus livros?", perguntou Elton, e sem esperar que o Escritor respondesse, continuou falando animado, estendendo um dos livros para ele, "Eu sou fã de suas histórias. Os personagens que você criou são incríveis, os dois irmãos e a amiga deles. Eu curti muito o primeiro volume, quando Henrique encontrou o livro misterioso que tinha o poder de matar as pessoas que tivessem o nome escrito neles". Ao ouvir aquelas palavras de Elton, o Escritor tomou um choque, congelando-se de pavor. Olhou para o livro em suas mãos, e viu na capa a imagem dos seus três personagens, Henrique, Roney e Hemilly, logo abaixo do título, com olhares desconfiados de quem procura pelo perigo ao seu redor. Ficou mudo, sentindo uma aceleração anormal no coração. Não conseguia fazer as palavras saírem de sua boca, e percebeu uma crescente falta de ar dentro de seu capacete. Elton permanecia diante dele, animado em explicar detalhes da história de cada um volumes. Porém, o Escritor já não escutava direito o que o garoto dizia. Sua visão começou a ficar turva, embaçada, e ele já não dicernia direito as imagens dos irmãos à sua frente. Suas vozes pareciam estar se misturando com a música que tocava insistentemente. Aturdido com toda aquela situação, sentiu uma tontura forte dominar seus sentidos, e tudo começou a girar lentamente ao seu redor até sumir em uma escuridão silenciosa. Caiu desmaiado e assim permaneceu por um minuto. Quando voltou a si, estava no chão, olhando para um teto branco e descascado em algumas partes. Ainda um pouco tonto, levantou-se, tentando recuperar os sentidos e recolocar seus pensamentos em ordem. Em sua viseira, um imagem translúcida mostrava algumas informações básicas de seus sinais vitais, alertando sobre sua pressão baixa e seus batimentos cardíacos. Passou a mão na viseira, afastando as imagens. Com algum dificuldade, levantou-se, respirando fundo. Calmamente olhou ao seu redor, examinando aquele apartamento vazio, empoeirado e inabitável. Era igual ao seu, com a diferença de que ninguém mais morava ali já há algum tempo. Permaneceu confortavelmente entorpecido pelo silêncio, enquanto olhava pela janela aquela manhã ainda fria e chuvosa.

Escrito por Ulisses Góes
 
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