sábado, 6 de maio de 2006

Cada música nova que escuto me inunda com algum sentimento enriquecedor para a minha alma, e acaba gravando em mim o retrato de uma época que vivo e respiro. E fico impressionado como tem certas músicas que de repente grudam em meus ouvidos e não paro de escutá-la. Agora estou escutando o novo álbum duplo de Red Hot Chilli Peppers, Stadium Arcadium, e a canção que me pegou desprevenido dessa vez foi Desecration Smile, primeira faixa do álbum Mars, uma canção com uma batida consistente, uma letra poderosa e verdadeira. Isso acabou me fazendo pensar em situações e momentos em nossas vidas que quase acabam por nos destruir. Amores, pessoas, ações, palavras. Tudo ao nosso redor tem um potencial latente de nos destruir em questão de segundos, e desestabilizar tudo o que tentamos construir durante muito tempo. É preciso saber viver e saber amar as pessoas da maneira certa. Apesar de que nem tudo depende unica e exclusivamente de nossos atos, apenas interagimos juntamente com milhares de outras pessoas nesse universo vasto. E é justamente nesse universo vasto e amplo que podemos mostrar que somos capazes de ser felizes ou não. Não existe, no momento, outro lugar que possamos fazer isso. Tem que ser agora e aqui. Cada momento é único e não podemos desperdiça-lo. Por isso é sempre bom pensar nas situações que quase nos destruiram, que por segundos nos fizeram sentir que estaríamos sendo jogados num precipício. Esses versos que escrevi tem certa influência dessa música do Red Hot que estou escutando agora. Eu recomendo ouvir o novo álbum. Quase tão bom quanto Californication. Eu disse quase.

Espaço Sideral

Estou sozinho rodando dentro de mim mesmo
Amo uma pessoa nociva para meu coração
Parece morfina, parece chocolate com adrenalina
Ando em círculos em meus sentimentos de anilina

Uma celebração pertubadora em amar você
Uma serenidade terrível que me afoga
Sons e sorrisos que nunca são ouvidos e vistos
a não ser por mim numa frequência viciante

Seus abraços me desintegram em poeira dentro de mim
Ando em torno de mim mesmo procurando você
É óbvio e ensurdecedor a sua voz em meus pensamentos
E eu não paro de quebrar meus caminhos
para sempre seguir seus passos debaixo do sol

Goles de Coca-Cola entre sorrisos largados
fotos e imagens brincando em meu álbum
Me esforço em sorrir mesmo que algo me machuque
Dificil é constatar que mesmo nocivo
Você é meu lindo Amor envolvente
Sincero, forte, incrivel, entorpecente


Estou sozinho rodando dentro de mim mesmo
Você tem uma obscuridade madura
Tento terminar o que eu mesmo comecei
Mas é impossível voltar pelo caminho
quando olhamos para trás e vemos
que não existe mais caminho.

Por Ulisses Góes, em maio 2006

quinta-feira, 16 de março de 2006


Tempos difíceis, tempos conturbados, acordo sonolento, procuro me arrumar a tempo de poder resolver o que é preciso resolver, mas parece que o mundo ao meu redor travou em algum momento. Todos os dias estão meio iguais, meio similares, e creio que seja até por culpa minha. É difícil compreender o que ocorre com a gente algumas vezes, parece que ficamos inertes num momento estranho de nossas vidas, como que sentado no alto de um penhasco, apenas apreciando a paisagem ao longe, sem muito o que poder fazer de fato, aguardando novas instruções, ou esperando que algo nos sacuda e então a gente acorde e recobre a consciência, como o prenúncio de uma tempestade iminente. Situações fugiram ao meu controle esses dias, como avisos de um possível temporal. Discuti com um jovem amigo meu, que considero muito, e ele, pela idade turbulenta da adolescência mergulhada numa revolta absurda e sem qualquer motivo convincente, parece estar jogando nossa amizade pela janela e dizendo adeus. Ontem discuti com meu irmão, e creio que ele não tenha mais retorno, pelo caminho que está trilhando, se entregando à embriaguez completa, se matando aos poucos. Não reconheço mais ele, completamente um conhecido, uma pessoa a quem nem bom dia mais eu dou.

Esses dias estão nublados, ontem choveu, e hoje o tempo continua fechado. A tempestade está eo redor. Não sei mais realmente porque eu fico aguardando que a tempestade se vá e que o sol volte a brilhar. Eu tenho que realmente acreditar que minhas forças e determinação aparecem justamente neste momento de inércia na qual me encontro temporariamente. O mais incrível de tudo é que justamente nessa época de minha vida acontecem certos milagres, surgem anjos que parece que estão perto de mim para me proteger e não deixar que nada de errado aconteça em minha vida. São pessoas especiais, que nos enchem os dias de alegrias e sorrisos, por mais que os problemas estejam ao nosso redor nos pertubando os pensamentos e desnorteando nosso espírito. De um lado, percebo amizades que eu prezo muito se perderem e se distanciarem de mim de maneira triste. De outro lado, outras amizades que nos mostram que a vida é vivida e sentida a cada momento e feita de situações, pedaços saborosos de sorrisos, conversas, num crescimento maduro e sincero, sem medo de demonstrar o quanto se gosta de alguém. E percebo que minha vida é assim, esse constante sabor de um chocolate de uma doçura meio amarga. Talvez a tempestade não seja de todo ruim. Quem sabe ela sirva para te limpar um pouco mais e mostrar que você ainda encontrará forças no final para poder observar o mau tempo indo embora, se distanciando no horizonte, enquanto você do alto do penhasco, observa o céu abrir.

Chocolate meio amargo

eu amo você, mas você é como um sopro de ventania na imensidão
Não posso te abraçar e você não consegue escutar meu coração
eu quero você, mas você é como uma imagem nítida na tv
eu vejo tua beleza, porém você não enxerga o amor que tenho por você
eu busco você, mas você é como o sol raiando acima das casas
não posso me aproximar muito para não derreter as asas

eu sinto você como se fosse o mundo todo ao meu redor
uma rajada de vento, um programa de tv, um nascer do sol
Você é o significado completo para o sentido de minha vida
E tudo o que tenho é meu amor, minhas asas e meu coração
para buscar estar sempre mais perto de você
e fazer valer cada segundo intenso de minha respiração

meu amor por você é um salto na imensidão.

Ulisses Góes

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Parecia até que eu estava lá, e realmente eu queria ter estado, presenciar de perto aquele show incrível, fabuloso, mágico, fantástico. As outras tournês do U2 nem ao menos houve a possibilidade de se acompanhar pela TV, além do que a última vez que o U2 veio ao Brasil foi com o POP Mart, um show que praticamente não faço idéia de como foi. Somente depois de lançar All That You Can't Leave Behind [2000] e How To Dismantle An Atomic Bom [2005], é que a banda resolveu trazer o Vertigo Tour para as terras brazucas. E dessa vez foi algo completamente diferente, mais envolvente, mais intenso. Apesar de ter assistido ao show pela tv, e já ter assistido ao DVD do show Live From Chicago por diversas vezes, poder acompanhar todo o evento proporcionado por Bono, The Edge, Adam e Larry foi algo como que um prêmio para quem não teve a oportunidade ou a impossibilidade de estar presente ao show. Momento inesquecível do show? Com certeza, o momento em que aquele jovem pernambucano de Caruaru subiu ao palco e soltou sua voz rouca para cantar junto com Bono. Para Victor [na foto acima, ao lado de Bono], um sonho plenamente realizado, e fico extremamente feliz por ele, pois em parte ele acabou realizando um sonho meu também, que sempre foi o de ir em show do U2. E lá estava aquele jovem feliz ao extremo, erguendo os braços ao alto, um pedaço de cada um de nós ali em cima, no palco, sentindo o gosto daquele momento, cada um como um pedaço daquele sonho ao vivo para todo país. Miss Sarajevo ainda ecoa em meus ouvidos, e o sorriso extasiante de Victor e a Declaração dos Direitos Humanos no imenso telão. Como não se emocionar com todo aquele público cantando num coro uníssono músicas memoráveis? Até minha mãe assistiu ao show e se emocionou ouvindo aquelas músicas. Mas infelizmente, tudo na vida é efêmero, até os melhores momentos passam, e cabe apenas a cada um de nós torná-los eternos em nossas memórias e nossos corações.

E você sente como ninguém antes
Você rouba bem debaixo de minha porta
E me ajoelho porque te quero um pouco mais
Eu quero muito do que você tem
E não quero nada que você não seja

Original of the Species - U2
Álbum How To Dismantle An Atomic Bom [2005]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

E mais um show do U2 no Brasil que eu não terei o prazer de presenciar, por motivo de força extremas. Se fosse no Rio de Janeiro, podem ter certeza absoluta de que eu já estaria lá nesse momento, curtindo cada dia, aguardando o dia esperado do show e lançando comentários diários aqui em meu blog, como se fosse um correspondente jornalístico, transmitindo notícias de lá de dentro do front musical. Mas shows em São Paulo me inviabilizam de muitas maneiras e realmente fico impossibilitado de ir até a capital paulista. Mas eu tenho certeza de que ainda irei um dia ao show do U2, e postarei em meu blog num futuro próximo. Essa semana escrevi mais versos sobre amor, essa semana pensei mais na minha vida, e me vejo cada vez mais analisando e concluindo situações e momentos em minha vida, e parece que estou a planejar meus passos futuros de alguma maneira. Meu sonho maior sempre foi ser feliz ao lado de quem a gente ama de verdade, e em raros momentos de minha vida consegui isso. Há tempos atrás eu estaria feito um louco, correndo atrás desse sonho, passos desnorteados, olhos alucinados, coração desesperado. Hoje, talvez um pouco mais maduro, talvez um pouco mais marcado pelas batalhas diárias da vida, cheio de algumas cicatrizes, carregando agora um pequeno baú de experiências, não corro mais atrás desse sonho, com passos desnorteados, olhos alucinados ou coração desesperado. Eu apenas agora sonho ele, sentado num gramado, admirando o poente e as belezas que desfilam livres, sentindo meu coração pulsando numa adrenalina intensa. Eu sei agora exatamente quem eu sou, o que sou, como são definitivamente meus sentimentos e como conviver com eles de maneira positiva. Mas enfim, todo poeta sofre, e meu sofrimento ainda existe, só que agora um pouco menos amargo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Eu tenho vários dons, e muitas vezes só descubro isso depois de usá-los. Tenho o dom de ser amigo, tenho o dom de perdoar, de persuadir de maneira positiva, tenho o dom de curar feridas internas, tenho o dom do ser otimismo. Muitos podem realmente vir a dizer que isso são apenas qualidades, mas eu acredito que hoje elas se tornaram dons especiais. E tudo porque o mundo involuiu, e regride na mesma velocidade em que você consegue pensar. Os valores se distorceram, as pessoas se dissimularam completamente, a Humanidade se perdeu num labirinto consumista, individualista, agressivo, pertubador. Por isso mesmo que eu digo que as qualidades ascenderam ao patamar de dons. Não é mais pra qualquer um saber perdoar. Perdoar se tornou algo iluminado, um poder que se eleva acima das pobres cabeças perdidas nas massas errantes e transitantes pelas vias expressas, se espremendo atônitas e aflitas pelas calçadas em busca dos segundos perdidos. Bom, se não se tem mais tempo para sorrir ou dar uma boa olhada num entardecer, com certeza todos tem tempo de ir ao shopping, se embrenhar pelas filas das compras, se anestesiar nas filas dos bancos. Isso é nosso mundo de hoje, infelizmente.

Aqui eu deveria estar falando de trivialidades, comentando sobre como foi meu dia, minha rotina sutil de levantar e deitar, comer e correr, pagar e trabalhar. Mas acabo sempre usando outro dom meu [o de escrever] para buscar o significado por trás de toda rotina, a filosofia por tras de cada gesto e cada atitude nossa. E aí transformo tudo num cataclisma poético, numa licença lírica de versos que fluem pela minha veia e mantêm meu corpo vivo e meu espírito pulsando. Meu segundo livro está praticamente pronto, os detalhes agora são mais técnicos e artísticos, e tenho certeza de que até antes de abril estarei lançando ele. Tenho o dom da paciência, mas sinto certa necessidade urgente em lançar logo esta minha nova obra, pois já tenho mais dois trabalhos prontos e finalizados. Tenho outro dom, o de sonhar sempre, até mesmo de olhos abertos. Sonhar de olhos fechados só mesmo para os exaustos das rotinas cansativas e diárias deste mundo desmbestado e perdido.

R.E.M.

Não enxergo a linha do horizonte
Estou atordoado
pelo asfalto que esquenta meus pés
e pelo amor que consome
este coração que se desfaz
em lágrimas que se evaporam
no Tempo antes que possam
tocar a Terra em beijos suicidas

Tudo parece um sonho
Onde nossos olhos brincam no escuro
Mas o dia avisa a claridade
E a ardência navega minha pele
Não enxergo vitórias nem glórias
Apenas vislumbro sua silhueta
Brincando e sorrindo ao meu redor

A estrada reflete em seus olhos
E tudo se confunde se funde e no fundo
Terra e Céu se afundam
Em nossas realidades oníricas
Tudo em mim flutua neste sonho

Asas rasgando cumulus e nimbos
E eu sendo açoitado pelos ventos
De meus pensamentos
Soprados de ti
Penhascos e abismos
Sussurros e suspiros
Sinto vertigens por teus sorrisos
Mas não é tempo de acordar
Nosso sonho não amanheceu ainda.

do livro À Sombra de Um Eclipse,
Ulisses Góes // a ser lançado
neste ano de 2006

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Durante muitos dias, na solidão de suas caminhadas sem destino certo por entre as plantações de cacau, o jovem dedicou todo o seu tempo na busca incessante pelo mico-leão dourado. Olhava atrás das pedras, pelas árvores, nos galhos dos cacaueiros, mas nada encontrava, a não ser a sua voz solta em ecos solitários pela mata. Às vezes ficava a se perguntar sobre o que realmente procurava. Era o momento da dúvida e da insegurança. Mas novamente algo se mexia por entre as folhagens, e o íntimo do jovem mais uma vez se agitava. Seus pensamentos sumiam, seus movimentos cessavam, e sua atenção se voltava na busca do pequeno habitante das matas. Ficava imóvel, inerte, na esperança de rever o mico. Quando percebia que sua espera era completamente inútil, sentava-se desanimado, e ficava a recordar da época em que havia trabalhado como voluntário em um projeto de uma ONG, que tinha por objetivo o equilíbrio sistemático entre áreas verdes e centros urbanos em diversas regiões do planeta. Lembrou de ter visto o mico-leão dourado incluído entre as espécies catalogadas como passíveis de extinção e que mereciam atenção especial por diversos órgãos do setor. Mais uma vez ruídos o despertavam de um transe reflexivo, e mais uma vez a agitação, a ansiedade, a busca, a angústia e o desespero por não encontrar absolutamente nada. Desesperado por não encontrar aquilo que tanto desejava, o jovem corria por entre as árvores, gritando os nomes das pessoas que um dia chegou a conhecer. Exausto, caía no chão, já ciente de que não procurava mais o mico, e sim, procurava alguém que viesse em seu socorro. Procurava pessoas. Procurava ajuda. Mas não encontrou ninguém, nem ao menos uma sombra, um vulto qualquer escondendo-se pelos vãos verdes da floresta largada.

E os dias eram nublados e cinzentos, e as noites eram escuras, de Lua e estrelas mortas. O jovem caminhava sem direção, apenas guiado pela sua imensa vontade de continuar vivo. Nunca mais viu o mico-leão dourado. Apenas pressentia sons, e sentia calafrios por causa disso. Lembrava-se do pequeno animal peludo sentado sobre as patinhas traseiras, sua cabecinha impaciente a olhar para todos os lados. E então experimentou continuamente, durante poucos segundos, o pulsar da vida. Era aquela mesma sensação momentânea de quando vira o mico. Uma sensação rápida, como uma gota d’água lançada num imenso deserto escaldante. O jovem não estava conseguindo reter essa gota por muito tempo mais, mas não desistia. Sabia que precisava insistir sempre, para que pudesse transformá-la em algo maior, um lago, um mar, um oceano. Mas o medo, a angústia e a solidão eram atribulações ainda presentes, tentando evaporar essa gota d’água. Tormentos cáusticos, cauterizando, convertendo o pulsar em escaras. As areias do deserto sugando uma gota d’água.

Sentindo o peso do cansaço causado pela longa jornada daquele dia, o jovem sentou-se à sombra de um Jequitibá. Descansava aos pés daquela imensa árvore, e pensava num modo de sair daquela situação, em como acordar de um pesadelo angustiante. Um pesadelo real, que o deixava cada vez mais acordado, vivendo numa realidade cruel e adversa. Meteu a mão no bolso direito de sua calça jeans surrada e encardida, e daí tirou sua carteira. Entre documentos, cartões de crédito e algum dinheiro, encontrou uma foto. Era uma foto de sua família. Seu pai, sua mãe, seus dois irmãos mais novos, e ele. Tinha quinze anos na época, e agora com vinte e um anos, o jovem tentava transpor a barreira do tempo, desmaterializar todos aqueles seis anos em que havia passado longe de sua família e de sua terra natal e voltar atrás. Acordar exatamente no dia em que aquela foto havia sido tirada.

Fechou os olhos então, e em poucos segundos estava revivendo um momento perdido no passado de sua vida.

Sentiu a brisa leve do mar assanhar seus cabelos castanhos, bem claros. Podia ver ao longe garotos brincando nas areias da praia. Levantou-se, aprumou o olhar, avistou seus dois irmãos entre os garotos. Ouviu alguém chamar seu nome. Sua mãe, um pouco mais distante, jogou-lhe um aceno de mão.

“Venha”, dizia ela, “Vamos tirar uma foto. Chame seus irmãos”. Ele tentava responder, mas não conseguia, apenas ficou parado, olhando sua mãe caminhar de volta pela praia. Seus irmãos continuavam brincando despreocupados naquela manhã ensolarada. Então, tudo ao seu redor ficou turvo, distorcido, e o que lhe parecia tão real desmanchou-se suavemente. As imagens de seu passado diluíram-se lentamente.

Lágrimas brotaram de seus olhos, rolando pelo seu rosto, e tocando silenciosas a terra na qual ele estava adormecido.A saudade pulsava forte dentro de teu peito. E foi justamente esse sentimento que o fizera decidir regressar para Itabuna. Era como uma espécie de chamado, uma voz distante, um som estranhamente familiar. Uma voz que se transformava num coro cheio de harmonia. Olhou a foto, tirada num belo dia de verão. Ouviu rugidos de trovões sobrevoando o céu nublado. A solidão apertou-lhe o coração. Aquela mesma solidão de cidade grande, que havia decidido enfrentar quando deixou sua terra natal, aquele pequeno mundo de cidade do interior, para ir buscar novos horizontes no progresso alucinado do Sul do país. Havia deixado seus quinze anos para trás, guardados na casa de seus pais, na rua onde havia crescido, na cidade onde havia nascido. O que viesse por agora guardaria em sua mochila pendurada em seu ombro. Ganhou a estrada, descobriu seu espírito aventureiro, seu sangue de peregrino, andarilho em busca de seus sonhos. Desvendou novos caminhos, pequenas outras trilhas por onde poderia caminhar. Ganhou encruzilhadas, e o direito de escolher o melhor caminho para si, mesmo que isso significasse a descoberta do erro. Outro rugido ecoou pelo ar. Agora, os caminhos estavam perdidos pela mata, escondido pelas ervas daninhas, e precisavam ser redescobertos. O jovem sabia que precisava reencontrar os caminhos. A foto permanecia em sua mão, enquanto tentava lembrar-se da última vez em que entrou em contato com sua família. Talvez uma terça-feira, ou uma sexta-feira, havia conversado pelo MSN com sua mãe, avisando que estava se preparando para ir passar o Natal com eles, o primeiro depois de seis anos longe de casa. No dia seguinte, numa conversa pelo videofone, a primeira também em seis anos, criou coragem e pôde então rever os rostos de seus pais, e seus irmãos já mais crescidos, já em plena adolescência. Quando desligou, não conseguiu conter as lágrimas de saudade, e estava realmente decidido a voltar. Iria novamente cair na estrada, dessa vez para retornar à sua terra natal, a terra das árvores dos frutos dourados.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Ultimamente me deparei com alguns poemas meus onde os títulos nos remetem a lugares que sabemos existir, mas aos quais nunca fomos, nunca chegamos realmente a conhecer em nossas vidas, ficando apenas a certeza de sua existência, apesar de nunca os ter vistos nem visitados. Na realidade, títulos que procuram explicar nossa própria existência, onde muitas vezes acreditamos em coisas que não vemos, não enxergamos, não temos como tocar, mas que sentimos e sabemos que nos permeia a alma, o espírito. Sim, você sabe que está amando, mas não pode tocar nesse sentimento, como se fosse na cozinha buscar um copo de leite, ou um pedaço de torta. Você sabe que ele existe, ele está ao seu redor, permeia sua pele de sensações e provocações hormonais, rodeia seu espírito como uma aura invisível de poder e força. Sim, é uma abstração que não faz parte desse mundo de corpos, massas e concretos.

Escrevi três poemas onde os títulos, por si só, procuram expressar essa faceta de nossa existência. São lugares que existem, estão lá, a milhares de quilômetros de distância, e eu sei que existem, mas que nunca fui lá, nunca andei por lá. E mesmo sabendo que nunca vi tais lugares, eu acredito que eles existam e os imagino e os sinto em meus pensamentos. Isso é um tipo de situação abstracional que podemos comparar com os sentimentos, as emoções. Amor, raiva, saudade, compreensão, paixão, fé. Como não acreditar em coisas que nos invadem de repente e se alojam dentro de nós muitas vezes até à nossa revelia? Mesmo que não se queira acreditar, isso não mudará o fato dos lugares existirem. Três poemas meus tem títulos assim: Chuva sobre Andaluzia, Os ventos de Kandahar e o mais recente, As areias de Corsica. Todos os três falam de sentimentos, amores, devoção a quem você ama, abstrações que você não enxerga, mas que sente. Assim como os lugares dos títulos. Você não os vê, nunca os viu, mas sabe que eles existem, e podem de alguma forma alterar o teu estado de espírito.


Chuva sobre Andaluzia

A maré trouxe para dentro de meu coração
Um bravo oceano de calmarias
Gotas de chuva e pés descalços
Criando inquietas ondas de revoluções
O céu lançou-me num abismo
Onde o vento limpa minha face
De todos os males do mundo
Chorei com um sorriso, me perdi num abraço
Dormi em afagos, afoguei-me em carinhos
Encontrei clarões sutis
Na escuridão que te envolvia
A tempestade nos atravessaria.


Os ventos de Kandahar

O deserto cruel apaga tuas pegadas
Evapora de teus poros
O suor de tuas conquistas
Deixando apenas o calor insistente
De tuas lembranças remotas
Caminhar numa jornada de amores perdidos
Contar os grãos de areia
Imaginar o mar, amar o distante
Guardado dentro do pensamento
E mesmo assim, diante de imensa distância
Enxugar tua lágrima, abraçar-te
Afogar tuas tristezas, guardar teu sono
E manter acesos os clarões sutis
Na escuridão que agora nos envolvia.


As areias de Corsica

Você é uma bênção. Um elo cativante.
A raiz das conexões incessantes.
O salto nos ventos dos horizontes.
Uma ilha ensolarada acima do Meridiano.
Você está na velocidade dos meus pensamentos
na dança descalça dos meus passos na praia
na música aprisionada em minha mente
no meus pés molhados e no meu olhar pensativo.
Você é uma sublimação. Uma essência constante.
Você criou minhas lembranças mais fortes
gerou meus versos mais lindos e corajosos
amanheceu meus dias mais impressionantes.
Você é uma poesia. Uma tradução divina.
Transmutação de sentidos, levitando meu
corpo e meu espírito para além do limite
onde perco o meu senso de gravidade.

 

Ulisses Góes

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Cada período de nossas vidas constitui-se numa série de ciclos entrelaçados, onde você realmente nunca sabe onde terminou um e onde o outro definitivamente teve início. Gostar das pessoas, amar umas, afastar-se de outras. Confesso que não fico feliz em ter determinadas certezas, como a hora que o dia termina, para dar início a um novo dia, ou a programação da tv, ou onde o sol nasce e se poe. Claro que que pra essas certezas existem pequenas e sutis variações, pois o sol nunca nasce sempre no mesmo ponto do horizonte, dependendo sempre da estação do ano em que nos encontramos. Mas esses ciclos que nos invadem a vida, onde você realmente não encontra o ponto determinante, são pequenos tormentos que algumas vezes me tomam de assalto o espírito. Que dia exatamente eu te conheci? Como nossa amizade realmente começou? Como eu fui me aproximando de você aos poucos, e de que maneira? Como chegamos a tudo isso, nesse ponto onde nos encontramos no momento? Ninguém lembra mesmo do princípio de tudo.

A impressão que eu tenho é que conhecemos as pessoas como se já conhecessemos antes, e tudo foi simplesmente um emaranhado de reencontros, de reaparições, quando na verdade, tudo teve um início certo, único, próprio. Isso que dá ficar pela madrugada escrevendo poesias, pensando nas pessoas que você ama, sentindo uma saudade saudável aflorando no peito. Mas as pessoas te influenciam de alguma maneira, e vice-versa. E assim vamos seguindo nossas vidas, onde as pessoas aparecem e tomam conta de você de forma mágica, onde elas te invadem e fazem você invadir elas. Onde você ensina o que sabe e aprende o que nem imagina. A vida é uma troca equivalente, uma alquimia reinante, uma transmutação de sentimentos e emoções. Só não escrevo mais sobre isso agora porque estou faminto e vou comer um pedaço de bolo de chocolate. Mas minhas palavras continuam logo abaixo, criadas por influências diversas, principalmente das pessoas que passam em sua vida e te marcam de alguma maneira. E por causa delas, eu amo sem limites, e por causa delas, eu sou capaz de desarmar bombas atômicas, antes que o mundo se exploda completamente.

Versos alquímicos

Eu não tenho para onde correr sem teus passos
Nessas ruas sem placas de sinalização
Meus caminhos são misteriosos e tortuosos
forrados de grama verde e rodeado de asfalto
Não tenho medo de não ser amado
Não tenho medo de colesterol nem de muros altos

Mas tenho medo de não ver teus passos ao meu lado
ou de não ouvir mais tua voz mágica ao meu redor
Sua face linda soltando sorrisos adocicados
Pois tudo que se move em minha vida
é por causa de você

Andar de trem acompanhando o mundo lá fora
Afogar-se na multidão de um show monumental
Encarar seu olhar e sua risada ao mesmo tempo
Dormir e sonhar com teus abraços macios
Pois tudo que se movimenta em torno de mim
é por causa de você

Não tenho para onde voar sem tuas asas
Nesse céu de bombas suicidas e ameaças terroristas
Minhas jornadas são poéticas e fantásticas
onde minha vida é transmutada em Alquimia
de palavras, de vontades, de versos, de desejos

Se eu te encontrar um dia, serei mais feliz
Terei mais coragem de realizar meus sonhos
e não pensarei duas vezes antes de nos salvar
Tenha certeza de que sempre te salvarei
Nem que tenha que desarmar uma bomba atômica
antes que o mundo inteiro se acabe numa explosão.

Ulisses Góes // dezembro 2005

sábado, 19 de novembro de 2005

Quando comecei a escrever esse poema, nessa última madrugada, tinha passado boa parte da noite conversando com meu amigo Sérgio, pelo msn. Ele, lá em Boston, e eu aqui em Itabuna, terras diferentes que parecem emergir de mundos antagônicos, universos erradicados em galáxias distantes. Tava inspirado pela letra da música do Audioslave, Doesn't Remind Me, do CD Out Of Exile e por algo escrito por um amigo meu em um fórum de discussão. Nesse Fórum, ele falava sobre amizade, solidão, a busca de nossa constante felicidade. Não deu outra. A necessidade incendiou-se dentro de mim, depois de um debate intenso sobre poesia com Sérgio, depois de ouvir uma música forte, depois de ler algo sincero e magnífico. Seriam ingredientes propícios sempre para meus escritos, minhas poesias? O que escrevi é tão nostálgico na essência quanto dramático no relato poético. Uma fuga, uma trágica perda, uma vontade de tentar esquecer aliada à impotência de conseguir alcançar esse objetivo. Um desabafo de quem perdeu tragicamente um jovem amigo. Mas qual foi minha surpresa e emoção, que me vieram lágrimas nos olhos, quando percebi que meu poema acabou se escrevendo sozinho, e se revelando por ele mesmo através de imagens de situações nunca vividas. A tal fuga para lembranças não existentes tinha sido em vão. Infelizmente, o efeito borboleta não estava funcionando.

Maverick na calçada

Olhares luminosos perdidos nas ruas espanholas
Os cabelos soltos e molhados diante do espelho
Martelando pregos e cantando melodias japonesas
Corro esquecido na amplidão dos estacionamentos
Tudo isso não me lembra você

Quebrando as cordas de uma guitarra esquecida
Solidão ensolarada sentada na beira da piscina
Brincando com a areia e limpando o suor na testa
Sanduiche de atum numa lanchonete movimentada
Tudo isso nada me lembra, muito menos você

Não consigo aprender o que tenho que esquecer
Sinto-me fraco e impotente embaixo do chuveiro
Saudade e água fria trazem de novo à tona
minhas lembranças e minhas lágrimas
Não consigo esquecer o que a vida me fez perder
Não há sabedoria suficiente ainda dentro de mim
Existem tentativas perdidas e choros insistentes

Dormindo docemente numa tarde fria e chuvosa
As letras miúdas nas legendas das fotos
Os cartões de embarques e os vistos nos passaportes
A calçada forrada de pedras simétricas e geométricas
Sentado no banco da frente de um Maverick
Nada disso realmente me lembra você

Não consigo aprender o que tenho que esquecer
Sou teimoso e deixo o passado me afogar
Não consigo esquecer o que a vida me fez perder
Não há forças suficientes dentro de mim
que façam eu me apegar a recordações
que nunca me farão lembrar do
verdadeiro Amigo que encontrei em você.

Ulisses Góes

domingo, 6 de novembro de 2005

Estou perdendo noites e me transformando em um ser virtualmente boêmio, me envolvendo em relações distantes, discutindo opiniões, vivenciando mais as pessoas atrás dos monitores do que mesmo nas ruas de minha cidade. E nunca me imaginei ouvindo rock gótico e punk cru. Nunca me imaginei escutando Nightwish, por influência de uma amigo meu que acabou me adotando como mano mais velho dele, e me pediu pra ser padrinho dele. Sempre me surpreendo como as pessoas acabam fazendo parte da vida da gente de alguma forma e acabam deixando suas marcas na gente, suas influências, numa troca recíproca de experiências. Depois de alguns sonhos meus espatifados e projetos que não deram em nada, me senti um pouco mais sozinho, mas no sentido de que parece que cada vez mais dependo apenas de mim pra poder girar as manivelas que movem meus sonhos. E fico ouvindo esses petardos do Green Day, no CD American Idiot, um retrato limpo e preciso de um país que é tão podre e cheio de defeitos como qualquer outro. Os estados Unidos sempre foram um pesadelo para todo o mundo, e depois de atentados, furacões, tempestades tropicais, os americanos percebem cada vez mais que são tão frágeis quanto qualquer outro país menos desenvolvido.

E as pessoas se apaixonam sempre por mim, e não consigo explicar como isso acontece, qual a química transcendental que me permeia, qual aura significativa de emoções me elabora a alma, para que pessoas tenham a sinceridade ativa de me dizer palavras de amor e de afeto. Música mais apropriada para essas palavras que escrevo é Wake me up when September ends, do CD novo do Green Day. O que move as pessoas são emoções e atitudes. Umas são movidas pelo coração, e a maioria pela razão crua, nascida do instinto cruel de sobrevivência. Se arrancar a pureza dos sentimentos e deixar a fúria das ações, o atrito das forças, sobra apenas um mundo sombrio de instintos e luta pela sobrevivência. Agora estou descartando sentimentos e escrevendo na fúria das palavras. Por isso estou ouvindo Dinho Ouro Preto ressucitar O Aborto Elétrico, uma das primeiras bandas de punk rock do Brasil com destaque no cenário nacional. E no final, me deparo com um mundo onde o amor é desesperador, quando não deveria ser. Um mundo onde os nossos sentimentos são sacudidos, e onde as pessoas vivem esmagando os sentimentos, estraçalhando as amizades, despedaçando os carinhos. E o que deveria ser a descoberta de sentimentos mágicos, acaba se transformando em desespero para entender algo que parece nos sufocar mansamente no meio do mundo moderno e sujo. Conclusão: estão abortando o amor antes mesmo que ele nasça dentro de você.

Love Song One
[Renato Russo]

Você me faz pensar demais
Sempre quando quero tentar
Ser só mais um que quer você
Ah! Não consigo entender
por que eu quero você
Não consigo entender

Você me faz deixar pra trás
tudo que faz lembrar
Como é viver sem ter você
Ah! Não consigo entender
por que eu quero você
Não consigo entender

Eu não sei mais voltar atrás
nunca deixei
quero parar de ser só
mais um que quer você
Ah! Não consigo entender
por que eu quero você
Não consigo entender

Você me faz pensar demais
Sempre quando quero tentar
Ser só mais um que quer você
Ah! Não consigo entender
por que eu quero você
Não consigo entender

Faixa do novo CD "MTV Especial
Aborto Elétrico", de Capital Inicial
 
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